Quando vi, já era tarde. Um dos seis que saíram em busca de nossa tão aventurada equipe voltou e deu uma saraivada de tiros, atingindo umas dez pessoas. Indefesas, mortas e feridas. Não contive minha raiva e praguejei contra o infeliz. Ivan conteve os ânimos do mentecapto e retirou o fuzil de sua mão. Num gesto rápido, logo o homem sacou uma pistola e a apontou para mim. Não tive medo. Até ensaiei um "Atira!", mas não quis assustar mais os reféns. Pedi para que Ivan deixasse eu entrar em contato com Stanz pelo rádio. Disse que iria ordenar o recuo da equipe. Dessa vez ele me atendeu sem dizer nenhuma gracinha...
"O que é isso, Stanz, tá querendo matar todo mundo aqui? Não ouviu o que aconteceu? Estão matando os reféns. Cadê a sua inteligência? Manda esse povo recuar agora, porra! Agora!"
E eles recuaram. Conseguiram matar um dos seis sequestradores. Na minha cabeça são cinco a menos. E a tensão só aumenta. Contei oito reféns mortos e dois feridos. Duas crianças morreram e uma grávida sofreu escoriações no rosto. Mais uma vez requisitei a Ivan o rádio, dessa vez para chamar uma equipe de paramédicos. Ele não concordou.
"Temos paramédicos em nossa equipe. E, além do mais, aqui há dois médicos. Aqueles alemães ali, você pode conversar com eles. Não quero que ela permaneça aqui dentro. Mande-os até ela e providencie que ela saia daqui com curativos."
Estou obedecendo ordens de um sequestrador. Stanz tenta, através de uma frequência do aeroporto fazer contato com Ivan. O homem surta e dá um tapa em Irana. Ela não entende. Nem eu. Já não sei mais raciocinar aqui dentro. Me tornei um zero. Mas ainda tenho controle de minhas emoções. Agora são doze e trinta. Algumas pessoas começam a reclamar de fome. Nada de trégua. Ivan me retira do andar. Subimos as escadas e dou de cara com meu uniforme no chão. Me sinto um bosta.
"Cowboy de araque. Vista suas roupas e saia daqui. Você não faz parte de nossos planos mais. Leve Irana com você e a prenda. Quero ter certeza de que ela sairá daqui antes das duas. Entende o que digo? Ela deve estar fora do aeroporto e do perímetro antes de duas horas da tarde. Caso contrário, não sobrará mais nenhum refém e seu nome será o responsável por isso tudo."
Mais uma vez obedeço ao crápula sem entender. Revisto Irana e a retiro da aeronave algemada. Nós dois estamos desarmados. Sinto uma luz vermelha no olho. É a mira do sniper. Abano com a mão direita, dando o comando de cessar fogo. Ele atira. Irana está morta, diante dos meus pés. Na pista, a uns 200 metros do avião, a equipe que que tentou o resgate em vão. Me olham e pedem para que eu me abaixe. Ouço cinco estampidos secos saindo do boeing; não fui alvejado. Mas o tiroteio começa. Me desespero. Penso nos reféns. Abro os braços e corro para perto do trem de pouso dianteiro. Ouço os gritos de vários reféns misturados a passos firmes pelo avião. Comandos de cessar-fogo vindos de dentro do aeroporto finalmente são obedecidos. Mas não consigo me mexer. Tenho medo de ser atingido pelas costas. Vejo Stanz tentando me focar num binóculo. Ando para a parte de trás do avião e sou seguido pela mira do sniper. O filho da puta não me deixa quieto um segundo só. Não me lembro de quem está nessa função, mas juro que darei uma surra dos diabos nesse infeliz. Matar Irana com certeza vai provocar mais baixas e nos deixar mais vulneráveis aos ataques terroristas.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Ivan

"Você pode me chamar de número 1."
Começo a conversa, já perguntando ao "1" o que eles queriam, como poderíamos ajudar e qual a quantidade de reféns que eles tinham sob poder. Ele não deu muitos detalhes, mas seu sotaque acentuado me lembrou algo como um irlandês, não um eslavo, como havia pensado antes. Os reféns que nós conseguimos libertar fizeram parte de um esquema bem maior que um simples sequestro aéreo.
"Você ouve. Eu falo. Você irá descer aqui, na parte de bagagens do avião, desarmado e sem escuta. Providenciarei para que isso realmente aconteça, sob a pena de um refém morto para cada desobediência por sua parte ou o resto dos policiais. Antes de descer para cá, você irá ordenar a imediata evasão de TODA a sua equipe desse avião. Com exceção de Irana e você; caso não saiba, ela faz parte do time que entrou aqui, provavelmente na mesma equipe de abordagem que você está participando. Ela é nossa infiltrada e irá fazer a sua custódia. Nada que você pensa importa para mim ou para os meus amigos. Agora vá, dê as ordens, sem que os outros saibam da condição de Irana."
Chamei a equipe toda à cabine de vôo. Alguns se demonstraram surpresos, outros aliviados, já que o ar condicionado não funcionava e o calor começava a incomodar. Stanz não autorizou a manobra. Tive de colocá-lo na linha com o número 1. Após uma conversa rápida ele cedeu. Estávamos perdendo espaço. E eu, mais ferrado do que imaginava.
Dei um toque na policial e ela cuidou do resto. Colocou praticamente todos os homens pra fora da aeronave e fechou uma das portas da cabine. Sem ela perceber, manchei seu colete com uma tinta indelével e invisível ao olho nu, só perceptível através de um equipamento de visão noturna. Fiz isso na esperança que nosso sniper entendesse, pois a cabine era escura e ele deveria estar usando esses óculos. Irana seguiu em frente e parou no primeiro lance de escadas. Sempre séria, ordenou de forma mecânica que eu me disvencilhasse de minhas coisas. Senti vontade de rir, mas a obedeci, sem nunca deixar de olhar nos seus olhos e odiar o que estava acontecendo.
Agora sou uma pomba sem asas num covil de cobras famintas. Desarmado, sem colete a prova de balas e sem comunicação. Só a minha camisa preta e minha calça. Nem a joelheira passou desapercebida por Irana. Descemos, eu na frente, sendo rendido por Irana e a MINHA submetralhadora. Um dos guardas me parou e mandou que eu tirasse as calças, botas e camiseta. Fiz tudo o que ele me mandou e ele entregou uma roupa ridícula, que mais parecia de entregador de pizza. Algo ligado ao aeroporto. Acho que uma roupa de orientador de tráfego de pista. A vesti, e percebi que Irana ria pela minhas costas, a vadia devia estar se deliciando: "Olha esse otário. Mal voltou de uma operação frustrada e está aí, servindo de isca de tubarão."
Contei 34 passageiros e 7 membros da equipe de comissários. Todos amarrados e entrelaçados. Cada um amarrado no outro. Quietos. Alguns dormindo, suando, com medo, pânico. Presas dentro da jaula. Notei alguém me fitando, do outro lado, me chamava com gestos. Fui andando e marcando alguns detalhes que poderiam salvar vidas. Mas não era hora para falso heroísmo, até porque eu não tinha condição alguma para tanto. "Você é o policial? Ótimo. Olhe essa foto. Esse é Ivan Mardrek Svanovic, preso no seu país há 23 anos. Daqui a pouco ele virá aqui para falar com você."
Confesso que não entendi uma palavra do que esse idiota me disse, mas, mesmo assim concordei e não respondi nada. Apenas lamentei que a Inglaterra pudesse ter dado essa mancada. O tal Ivan aparece e me ri, dizendo:
"Sou o número 1, pateta. E você, Agente Paul, vai contar ao público inglês toda essa nossa tragédia com hora marcada. Dentro de 20 minutos, outro avião, só que dessa vez militar, pousará ao nosso lado, trazendo nossos brinquedinhos explosivos. Sei que está doido para oferecer isso e aquilo para acabarmos de vez com essa palhaçada. Mas, lembre-se disso: essa é uma missão suicida. Todos aqui estão preparados para morrer, menos essa corja de americanos, espanhóis, suíços, alemães, esses turistas idiotas que ainda acreditam na beleza dessa merda de Reino Unido."
"Olha, Ivan, não sei exatamente o que vocês querem, mas ainda acho que podemos pelo menos tentar outra saída. Principalmente se há política no meio disso aqui tudo. O que não vai acontecer é mais gente ter que morrer pra darmos um fim nisso, você concorda?"
"Agente Paul. O senhor é mesmo um babaca nato. Tem todos os vícios que um policial metido a esperto poderia ter, só que hoje essa negociação será frustrada. Várias pessoas, inclusive nós dois vão morrer aqui, nessa espelunca que chamam de aeroporto. Minhas condições serão as seguintes: o senhor e essa leva de turistas espantados irão permanecer aqui até o próximo avião pousar. Daí, um a um, levanta e vai até a pista, todos misturados à minha equipe, inclusive Irana e você, que, no caso, terá sua identidade confundida com a de um orientador de pista. Nisso, iremos carregar esse avião aqui com explosivos e voltar o outro para o hall do aeroporto, o senhor me entende?"
Acenei com a cabeça e me lembrei do spray na roupa de Irana. Farei o máximo para que o sniper, agora supostamente sem o equipamento infra-vermelho perceba. Não sei como, mas terei de retardar esse plano em 12 horas, para que o dia acabe e a penumbra me ajude. Pedirei tempo, vou tentar negociar mais.
"Não há possibilidade de acordo com esse governo, Ivan. A política anti-terrorista inglesa vai massacrar todos nós. Nenhuma aeronave irá conseguir se aproximar daqui. O espaço aéreo de toda a Inglaterra e, talvez da Europa está sitiado e mantido sob vigilância da Aeronáutica Real e outras esquadrias. Se brincar até os norte-americanos estão aqui. Sou da polícia local, mas tenho influência na Interpol, posso te ajudar a sair daqui, até me disponho a ir ao destino final. Conseguiremos asilo político de onde vocês vieram. Mas clamo pela paz. A qualquer custo."
"Bem, meninos, temos aqui o que chamo de talento disperdiçado. Talvez se fosse um líder de esquerda ou mesmo da situação dessa engano que é a Inglaterra, o senhor tivesse mais fortuna. Mas não, vc é a corja, parte de um sistema falido e prepotente, a merda da sociedade. O anti-herói, que hoje vai ser o nosso palhaço, nosso bobo da corte."
Todos, inclusive alguns reféns riram. A vontade que me dá é a de pular no pescoço desse velho idiota e puxar suas veias uma a uma, com minhas próprias mãos. Acho que até devo fazer isso, mais pra frente. Ouço o estrondo de uma granada vindo do chão. Somos nós, com certeza. E agora melou tudo de vez. Coordenadamente, 6 criminosos saem em fila dupla, uma formação meio burra, mas que de vez em quando funciona. O duro é que Ivan, o número 1 está puto. Muito puto.
Retorno

Um mês passa rápido na cabeça de quem não se aquieta por nada. Não descansei, não cuidei do meu ferimento e fiquei pendurado em todas as modalidades modernas ou não de comunicação. Não me despluguei do mundo. Pior. Fiquei inerte e com a cabeça ávida, cheia de esperança e de raiva. Muita raiva mesmo. Minha companhia foi minha velha e bela pistola. Uma 9mm que teimo em guardar comigo, mesmo sabendo que na Coorporação existem melhores. Mas essa tem até nome, sobrenome e sabe exatamente o que penso. Velha amiga.
Quando Stanz me pega para a volta ao batente, noto o ar de felicidade no cara. Pergunto: "Tá feliz em me ver ou isso é alívio?" - Stanz responde "os dois". Bem, daí já começo a imaginar o que vem pela frente. No caminho, seu parceiro, um tal de Gooth, me interroga, faz um monte de perguntas idiotas e chego até a pensar que ele fora instruído para isso. Não vacilo e disparo aquela pergunta que nenhum policial gosta de ouvir: "É da Corregedoria?"
Agora o cenário é diferente. Temos de abordar uma quadrilha, de, aproximadamente 15 caras dentro de um avião. Nos deslocamos até o aeroporto e começo a ouvir as instruções de Stanz, novo chefe de equipe. Devemos cortar o fornecimento de energia do avião, depois de identificarmos quem é quem lá dentro. Espero calmamente suas instruções ecoarem no hangar e protesto: "Stanz, não dá pra identificar sem sermos vistos. Devemos negociar com eles. Esse tipo de gente tem demandas e elas em geral são políticas." Ele me ouve e dá um não com a cabeça. Despacha as equipes: Hotel, Bravo e Papa. Três equipes de seis policiais. Todos de elite, especializados em abordagem de alto risco. Mantenho meu protesto e sou chamado de lado. Stanz me dá um esporro daqueles e diz que isso já teria sido cogitado, que eu não era mais o chefe, blá-blá-blá...
Humildemente me junto à equipe Papa. Somos o pelotão de frente. Entraremos depois de mandarem uma bomba de mostarda para o sniper fazer nossa cobertura. Vamos pela cabine de pilotagem. Aguardo acuado a um trem de pouso. Um de nossos equipamentos de escuta, colocados pelo nosso negociador no avião me deixa ciente de tudo: Eslavos. Mais ou menos dez deles. Não dizem nomes, chamam pelos outros por números. E não tem uma sequência numérica. São criativos. Não apelam para a violência, mas mantêm a rigidez. Profissionais. Tô fodido.
Minha submetralhadora agora recebe o suor de meus dedos. O gatilho está encharcado. Olho para o relógio: oito e cinco da manhã. Sol brando, meio nublado, porém tempo firme, sem possibilidade de chuva. No ouvido direito, escuto o áudio do interior da aeronave, no esquerdo, os comandos de Stanz e todas as equipes. Vejo que no meu "time" temos uma moça. Acho que ela veio de outra circunscrição, tem cara de latina. Não diz nada. É profissional, ou está se cagando de medo também. Nossos olhos se cruzam e tento um aceno com a cabeça. Nada. Nem responde. Olha pra cima e me aponta, com sua arma, onde tenho de entrar. Minha vez chegou.
Temos um martelo, com ponta de diamante, capaz de quebrar algumas espécies de vidros. Mas aqui, os vidros são revestidos por outro material, um acrílico acho. Dou uma pequena batida só para ver o que daria. Um pequeno furo me garante a quebra do vidro. Olho pelo pequeno espelho alçado e não vejo alma na cabine. Bomba de mostarda. Quebro o vidro aguardando que minha equipe entre por duas de quatro ventanas. Todos entram. Sigo atrás. A moça lidera e fazemos uma formação em V. O vértice de nossa equipe é uma mulher que nem sei o nome, de onde veio, pra onde vai, mas foda-se. Meu coração disparado, minha vista estatelada, não suo mais. Porrada. Agora é a hora da porrada. A equipe Bravo, que entrou pela emergência anuncia duas baixas inimigas. Abrimos a porta. Há outra, fechada e toda arrebentada de tiros. Cartuchos no solo indicam que alguém esteve ali empunhando uma Kalashnikov. Beleza. Vai ter porrada! Começo a pensar que nem um lobo louco sedento. Não sou mais uma tábua de medo. Entramos. Pé na tábua. Um deles de costas é atingido na coxa. Outro se joga ao chão e detona uma rodada de sua AK-47. Bravo e Papa abatem o do solo. Piso no pescoço do primeiro atingido. O interior da aeronave tem um cheiro de amendoim. "Cianureto!" Eu grito. Mas em vão. Uma granada de fabricação caseira estava em uma das portas derrubadas por nós. Ela gira e lança o gás rapidamente. Um dos reféns grita e tosse. Mando calar a boca e vestir a máscara de oxigênio. Nossa líder interfere e não autoriza ninguém a vestir as máscaras. Entendi o recado e continuo em frente. Stanz me chama, não respondo e abato mais um. Esse é o número 4 em baixa. Um dos nossos, da equipe Hotel tenta algo e acaba morrendo. Estava no compartimento de bagagens. Já estamos errados. Uma baixa policial é algo não tolerado e pode significar várias baixas civis. Os sequestradores não usam capuz. Estão vestidos com roupas comuns e sabem se movimentar dentro do avião. Na certa estão acuados no bagageiro com alguma "surpresa." Stanz me chama de novo. Agora respondo. Ele me destaca para baixo, para acompanhar Hotel. Vou, enquanto Lafforgh, esse o nome dela, lidera a saída de reféns. São dois andares de passageiros, sala de máquinas e compartimento de carga. Desço, acompanhado de outro Anti-Sequestro. No andar de baixo Hotel mantém a segurança de alguns reféns e de parte dos comissários de bordo. Baloung me dá as coordenadas para eu descer e me assegura do perigo que seria. Peço para uma das aeromoças o microfone para falar com os sequestradores. Ela me guia até um moquifo apertado, onde há um telefone. Tiro meu capacete e ela me olha como se eu fosse um santo. Mando-a sair do avião. Ela nega, diz que sua compania aérea não permite que ninguém saia enquanto nada estiver resolvido. Foda-se.
"Alô; aqui é o Agente Paul. Com quem falo?"
Rápida

Chegamos ao Distrito. Eu, depois de ir ao médico e fazer um curativo meia-bomba na perna e o restante da equipe. A palestra hoje foi um azar só; broncas, xingamentos, decepções, perdas e muita besteira de quem estava com a cabeça quente e procurava descontar erros nos outros. O Delegado é assim mesmo. E tem suas razões. Mas não sabe nada de estratégia, não entra em campo seguro, não coordena bem uma equipe de resgate. A sua cabeça política não é mais o território seguro e austero de quem deve decidir rápido e não admitir falhas. Nosso treinamento, embora tenha sido na mesma época, foi diferente. Eu, por não ser Delegado, acabei ficando com a parte mais pesada; rústica e objetiva. Ele passou por algumas lições e acabou recebendo mais uma qualificação policial. Obra da política. Candidato a prefeito, com certeza nas próximas eleições.
O saldo realmente foi aterrorizador. Nada que uma simples equipe da S.W.A.T. resolvesse. Fomos burros e impulsivos. Não demos conta de uma situação simples e que não admitiria riscos. Eu reconheço que fui um dos que se levaram pela emoção. Um engano tremendo. Acho que preciso conversar com o pessoal, mas todos estão exaustos e cheios de raiva. Sem falar nos feridos e mortos. Linda, nossa chefe operacional, me chama no corredor. Não sei o que dizer. Fico estático e ouço mais uma saraivada de sermões que nem Moisés conseguiria escutar. Aliás, minha paciência se esgota a cada minuto passado aqui dentro dessa delegacia. Peço para ir embora. Mas o diabo do relatório tem que estar ali, do clássico jeito. Na mesa dela. Na mesa do Delegado. Na mesa do Comissário. Faço o que tem de ser feito, de cara amarrada, dores na perna e nas costas. Um quilo e meio de paracetamol, anti-inflamatórios e analgésicos depois, sou levado em casa. Repouso por um mês. Merda...
quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Em questão de segundos uma mulher se coloca na minha frente. Ela aponta uma M-16 para frente e, provavelmente, uma pistola às costas de um suposto refém encapuzado. Deixo-a sair e comando o cessar fogo para a equipe de retaguarda. Mas mantenho minha arma em direção aos dois, caso isso fosse um blefe, estariam mortos. O Delegado não entende e começa a praguejar para que atirássemos. Digo que não. Para ficar quieto e negociar com a "suspeita".
Os dois conseguem sair, imediatamente são iluminados pelo facho de luz de nosso apoio aéreo. Comando a entrada e Stanz aparece no meu visual. Ele está ferido, mas consegue andar. Acho que acertaram o ombro do animal. Mas Stanz não titubeia. Segue firme. Me coloco à sua frente e dou os primeiros passos em direção ao andar de cima. Convoco o apoio aéreo para entrar pelas janelas depois do meu sinal. Não obtenho resposta. O Delegado manda eu parar. Paro. Respiro. Ouço a respiração fraca de Stanz. Mando ele sair com um gesto. Ele não obedece. "Stanz, sai daqui, você vai morrer, idiota!" Nada.
Beleza, espero e noto uma gritaria do lado de fora. Cinco disparos e oito respostas, todas do andar de cima. Subo as escadas, Stanz sobe também e notamos o quanto estávamos fodidos. Oito caras se voltam para nós e nem pensam. Mandam chumbo. "Merda! Merda! Desce, velho, desce!" Damos de cara com outra equipe que ordena a nossa volta. Me jogo no chão. Stanz joga uma granada de gás. Tento empunhar meu fuzil e tremo. Vacilei. Me chutam de lado e caio no térreo. A mulher me olha no fundo de meus olhos e atira. Atiro quase ao mesmo tempo. Nós dois caímos. Eu me joguei, ela sei lá o que aconteceu, mas agora estava sozinha. Ela tenta se levantar e descarrego outra rodada em direção ao seu joelho. Esmigalho a perna dela, grito e me levanto. "Abatida!"
Ouço os passos firmes no andar de cima. Muitos tiros. Vários gritos. Lanço fora o fone do meu ouvido e jogo fora também minha máscara. O som melhora. Meu ouvido agora só zune enquanto recarrego mais uma rodada no fuzil. Subo e dou de cara com o corpo de Stanz, sem arma e mole, sem expressão no rosto. "Médico!" Esqueci que não estava mais no exército e que a equipe médica estava no ar, em outro helicóptero.
As janelas se quebram com os disparos da M-50 vindos de cima. Os Anjos começaram a dar suas cartas. Mais uma vez no andar de cima visualizo agora cinco policiais contra seis sequestradores. Atiro em um deles e o jogo longe. Estava de colete. Atiro mais uma vez e erro seu pé. Me esgano de raiva e atiro em um dos seus braços. Acertei. Sinto uma picada de marimbondo na minha batata. Dancei. Caio no chão e grito, como se estivesse sendo ouvido. Mas não tenho mais rádio. Fico em posição de tiro deitado mesmo e grito para Murddock o meu nome. Ele me ouve mas nem se vira. Inferno no quintal do inimigo. Cápsulas caem no assoalho de madeira ecoando o som da dança sangrenta. Sou puxado e jogado escada abaixo. Carl sobe com uma calibre 12 espalhando o caos e a violência gratuita dentro do cômodo.
Acabou. O silêncio que vem é mentiroso. Uma calma aparente, empolgante e dura. Morreram todos. Pelo menos foi o que pensei. Gritos de dor se misturam às gargalhadas de uma voz que não conheço. Mais três tiros silenciados. Perdemos a batalha. Três reféns mortos e um sequestrador suicida. Vou ouvir muito essa noite. Nem sinto mais dor. Uma enfermeira pergunta se estou bem e não ouve nada de respota. Só um grunhido de raiva.
O Delegado entra fazendo não com a cabeça. Passa por mim como se eu fosse um abajur.
Camarões

Três e meia da manhã. Todos vidrados, acordados e aguardando ordens para entrar no cativeiro. Três reféns importantíssimos para o governo e nada relevantes para a sociedade esperam ansiosos pela nossa entrada. Aliás, eles nem sabem que estamos aqui, só devem desconfiar e achar que somos atrasados, que os gastos com a polícia local deveriam dar resultados, que políticos sequestrados seriam facilmente rastreados, essas merdas...
Só sei que meu nervosismo se transformou em calma. Uma calma perigosa de quem não sabe o que vai acontecer e que tem, por obrigação, manter a fachada de homem centrado. Murddock me olha e dá o sinal. Corre-se. Muito. O som de nossas botas incomoda meus ouvidos, penso que poderíamos ser alvejados de imediato. Mas o sinal seria dado só em caso de extrema decisão. Calculadas as hipóteses de sermos descobertos e subtraídas as chances de sucesso aliadas às nossas condições, começamos a entrar.
Dois tiros. Um deles, uma bomba de fumaça. O outro, uma de gás de pimenta. Várias armas são preparadas para o tiro dentro da casa. Começa a carnificina. Vejo que Murddock e Lavej são vistos. Lavej se esconde atrás de um carro e Murddock segue em frente fazendo zigue-zague. Tento dar cobertura, mas meu ângulo de tiro é cego. Não posso atirar, com medo de acertar um parceiro; jogo uma granada de luz e som, a famosa flashbang, preferida dos videogammers....Ela entra por uma janela e cumpre o prometido. Por 12 segundos não temos resposta do inimigo. Entro. Vejo quatro encapuzados, todos com pistolas e fuzis automáticos. Fico sem resposta e recebo uma ordem pelo rádio:"Anda, cara! Atira!"
Cinco polegadas abaixo de minha mira está uma granada pendurada no pescoço de um dos sequestradores. Não sei como, mas consigo explodí-la, provocando a morte dele e o ferimento dos outros três. Era uma granada de impacto, de 12 kg de força frontal. Russa, militar. Esses caras têm um fornecedor dos bons. Na certa é um dos que está como refém. Ouço o estampido da granada e saio da cozinha. Um erro. Não se entra no cativeiro e depois sai; se entrou, entrou e pronto. Mas meu ouvido esquerdo sangra e não consigo escutar porra nenhuma do rádio. Chamo a Central e comunico meu ferimento. Stanz me puxa para a direita e deflagra uma saraivada de cartuchos 9mm. Todos eles com endereço certo. As janelas do andar de cima. Vários observadores se escondem e saem da linha de tiro. Entendo o recado, espero a rodada de Stanz terminar e logo em seguida dou o meu recado. Consigo acertar um deles de raspão e corro em direção à casa. Só que agora mudo minha entrada. Stanz me substitui e entra pela cozinha. Ninguém o recebe. Estão na parte de cima mesmo. Murddock canta a pedra pelo rádio. "Granada!" Outro barulho seco. Mais uma flashbang. Um grito de socorro é seguido de dois disparos silenciados. "Perdemos um refém,imaginei."
O sangue nos olhos dos sequestradores se transforma pouco a pouco em medo. Um deles resolve se entregar e é morto antes de colocar a arma no chão. Um erro nosso. Mas a possibilidade de blefe nos ajudaria em um processo administrativo. Não é hora para se pensar nisso. Entro na casa e não vejo nada. Uma fumaça verde com cheiro de pimenta do reino entra pelas minhas narinas e começo a tossir. A merda da minha máscara não está mais funcionando...
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Um pouco de Metal

Rapazes e moças da Interrede de computadores. Passo do pressuposto aqui nessas próximas linhas que Heavy Metal is the Law. Uma música do Helloween já dizia isso. Outra, do Gamma Ray afirma que estamos no Heavy Metal Universe. Manowar prega que os Gods Made Heavy Metal. Poucos exemplos de como esse estilo cheio de nuances, mitos, preconceitos e adoradores resiste ao tempo. Mais do que Rock and Roll, o Metal, algo que acreditam ser do fim da década de 60 é mesmo um meio de vida. Metaleiros integram uma sociedade nada secreta de amantes da música. E não é só o Metal. Esse, é o predileto, o que faz pensar, memorizar fórmulas de Física, amar, odiar, por para fora os capetas e, mais do que outra coisa: tocar instrumentos invisíveis. Rapaz...Não tem Metaleiro que se preze que não saiba TODAS as partes da guitarra, baixo, bateria, teclado e voz....Além de outras coisas menos ortodoxas. Basta ir a qualquer lugar em que esteja presente o som metálico e você verá: uma legião de músicos virtuais que estão cagando e andando se é normal ou não esmurrar mesas, bater nas pernas, no ar e fazer expressões de artistas em shows. Isso é paixão, devoção, não se explica. Também, explicar pra quê? Se é gosto, dane-se. Ou F...-se!
Homens, mulheres, animais e até alienígenas acreditam que é a única forma de satisfação em muitas merdas que acontecem na vida. Ou mesmo um jeito de tomar bebidas com amigos e comer pedaços de carne, de nachos, petiscos.
Headbangers, the wolrd is yours too! UP METAL! HAIL!
Goiânia é de Direita

Motoristas, motociclistas, ciclistas, pedestres e outras partes integrantes do nosso querido trânsito goianiense. Prestem atenção em uma coisa: nessa cidade, quase é impossível virar à esquerda. Isso. Essa simples mudança de curso, de uma reta para uma via canhota. A maioria dos sinais daqui são proibitivos, eles mandam o condutor para uma longa reta ou mesmo forçam uma virada à direita, para depois virar a direita de novo e, assim, ficar de frente com aquela via que antes ficava a poucos metros do seu painel. Isso é ridículo. Uma disfunção estomacal e venosa da nossa corrente marítima de carros, motos, ônibus e carroças. Como é que pode uma Agência Municipal de Não-Sei-o-Quê concordar e fazer isso. Olha, são poucos, pouquíssimos casos de sinais de trânsito que permitam essa conversão de faixa. Ao invés disso, é mais rentável encher as ruas de fotosensores, indisgestamente apelidados de pardais (coitados dos pássaros) que multam, multam, multam os condutores que não encontram UM Agente de Trânsito para lhes INFORMAR como é que vai para a rua tal....
Lembrem-se: TODOS anos pagamos IPVA, DPVAT, LICENCIAMENTO, taxas abusivas de registros, de habilitação, renovação de carteiras, multas, juros...Ande por aí, pelas T's, C's, 121234242's da vida. Você vai perceber que quase é impossível virar à esquerda! Se isso é inteligência de uma Engenharia de Tráfego, prefiro a burrice de cidades como Belo Horizonte, Fortaleza, Cuiabá, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba. Nessas e em outras cidades do Brasil não é um pecado você virar para o outro lado senão o do meio-fio (guia).
E viva a esquerda e sua conversão!
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Cena do Crime II

O vento é abafado, mesmo de madrugada. O rosto de Smith é algo aterrorizante. Mesmo assim tentamos manter as aparências e o levamos até ao Distrito. Lá, o relatório frio e calculista de um assassino passional. Ele sempre afirmando que não era a primeira vez que ameaçara a mulher e que isso um dia iria acabar acontecendo. Inspetor Murddock e eu só conseguíamos fazer cara de nojo enquanto acompanhávamos o depoimento. Delegado Schwartz era taxativo e estava deixando bem claro o quanto sua noite de sono perdida iria custar ao acusado. Nada de perdão. Nada de Direitos Humanos.Só o óbvio. Raiva. Ódio e vontade de terminar com aquilo tudo.
A vantagem da prisão em flagrante é que em alguns casos, dá menos trabalho. A burocracia de um inquérito é menor. Mais sucinta. Nada faz, porém, que ela não exista. E é a pior parte de uma prisão; você sabe que o cara está errado, ouve toda a sua versão, umas dez vezes, colhe os seus dados, documentação...Um saco! E ainda dá pena. A maioria das vezes sentimos pena dos que são pobres, sem condições de defesa ou mesmo de criminosos de primeira viagem que se mostram realmente arrependidos. O trabalho tem de ser feito. A qualquer custo. Até pois, se pensar em mim, poderia estar em lugares diferentes. E a Lei é cega. Pelo menos deveria ser.
Murddock sai da sala do Delegado e me chama pra um café. Vejo que meu velho parceiro e amigo está acabado. Vários são seus sinais do tempo. A feição de um nômade que já atravessou muitas tempestades de areia, o cansaço de seus olhos, a bruta face marcada por expressões e a voz. A voz de Murddock é cansada, rouca e cheia de preguiça. Tomo café e me pergunto: "Será que é assim que vou ficar?" Sei que é. Mas que merda de vida. O café então, parece mais o resultado de uma lavagem de panos. Porra de café ruim.
O Delegado libera o acusado. Lentamente o levamos até a carceragem e digo: "Não adinata você dar uma de engraçadinho agora, Smith. É para lá que você vai." Ele nem titubeia e olha sempre para a frente, parece aceitar o destino e seu arrependimento é nulo. Entra na cela, o barulho da tranca (o famoso "cambão") o assusta. Agora parece que a ficha caiu. Ele chora e pede para que saiamos dali.
Voltamos ao local do crime. Os peritos ainda colhiam provas materiais e uma senhora me interrompe.
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