
Hoje eu morro. Pensei nisso várias vezes desde que entrei nessa enrascada. Nessas horas lembro bem de meus pais, quando tinha meus 17 anos e eles reforçavam a idéia de que entrar no Exército Inglês não me faria mais digno do que ninguém, que eu teria de seguir a carreira de advogado de meu pai ou mesmo a de médico, como minha mãe o fora antes de morrer. Mas não, quando se tem uma vocação você se esquece do dinheiro, do status, das convenções sociais e até mesmo se esquece de si mesmo.
Respirando ofegantemente, por causa do medo, me dirigi a um dos bancos e olhei para Ivan, meio que pedindo autorização para me sentar. Ele acenou um "não" com a cabeça e me encaminhou até a cabine. Não sei o motivo, mas fiquei mais tranquilo com isso.
Dois pilotos mortos estavam sendo tirados de dentro da cabine quando cheguei. Um deles não deveria ter mais de 30 anos de idade. O mais velho, cheio de condecorações e medalhas espalhadas pelo uniforme, devia ter uns 60 ou mais. Tive pena e raiva ao mesmo tempo, mas não era hora de me expressar. Um dos terroristas me acomodou num banco que fica atrás do co-pilto, acho que deve ser o assento do comissário de bordo. Que também tinha sido morto. Não entendendo mais nada do que eles conversavam entre si por causa da língua, permaneço imóvel. Estático e atônito, me perguntando qual seria o meu valor ainda vivo, já que militares estão no avião e valem estrategicamente bem mais do que um simples policial. Agora, quando o piloto terrorista entra em contato com a torre de controle falando em Inglês, começo a entender. Ele vai enumerando uma a uma as personalidades "interessantes" para o Governo Inglês não abater a aeronave. Então, reconheço o nome de uma delas: Jonh McMannan The Third, o deputado que tinha visto antes. E o filho da puta pertence à Família Real. Por enquanto estamos bem.
"Policial, deixa eu te dizer algo: você está prestes a testemunhar algo que irá mudar a vida da humanidade. Em sintonia com essa operação, outras aeronaves no mundo todo, inclusive no Brasil, participam do Dia do Terror. Articulados com várias facções libertadoras, estamos agora rumo à Pequim, cidade onde teremos asilo político e local de um fuzilamento em massa. Incluindo vossa pessoa, um belo plano, não?" - "Sim, só gostaria de saber o porquê você me contou isso. Não estou nem aí pra suas palavras, sejam elas cheias de ideologias ou não. Só me preocupo com o bem-estar de todos esses inocentes que vocês colocaram nessa. Solte-os, vamos negociar com a cúpula da Polícia Inglesa e a Interpol, poderemos entrar em contato com a Família Real e garantir a vida de todos vocês; estão cometendo um erro crasso se acham que sairão daqui sem arranhões!"
"Olha que para um policial o senhor até que fala bem. Mas agora não adianta mais, Sir Officer! Estamos a poucas horas do nosso destino. Antes de chegar lá, até permitirei que fale com alguém de sua família ao telefone." - "Se for por isso não se esquente à toa. Minha família toda sou eu mesmo." - "Comovente. Então ligue para o Diabo, talvez ele te dê atenção."
Ligarei sim, bastardo; e nessa ligação, farei o possível para que ele não te esqueça. Te vejo no Inferno!