Após vários murros e pontapés, o torturador me deixou em paz. Nem sequer perguntou nada, não sei se pela falta de conhecimento de nossa língua, ou mesmo se estava ali só para "relaxar" meus músculos.
Não consegui dormir, até por medo de uma convulsão, por ter apanhado uma penca de vezes na cabeça. O que me assustou mais, além das surras que levei foi ter de ouvir alguns da tropa serem eletrocutados em outras celas. A violência contra os outros parece que dói mais do que em nós, em certos casos.
Uma sequência de saraivadas entrou através das paredes do meu "quarto improvisado", pelo som, eram nossos aliados, mandando chumbo contra o quartel. Alívio e preocupação, pois os tiros vinham da artilharia pesada, o que poderia causar baixas dos dois lados.
O chão é o limite, pensei, rastejando contra a parede de entrada da cela, consegui, depois de muito esforço, alcançar o cantil de um inimigo alvejado. Nunca beber água foi tão bom na minha vida!
Procurei por armas, mas apenas um canivete, dentro de um bornel, aliás, cheio de comida, ainda bem!
Os inimigos recolhiam o que podiam levar e, pouco a pouco iam incendiando tudo. Me fingi de morto, aproveitando a poça de sangue formada pelo meu espancamento anterior e, com ajuda de todos os santos, evitei um disparo de misericórdia.
quarta-feira, 15 de julho de 2015
terça-feira, 2 de junho de 2015
Contato
Nos rendemos. Nada a fazer, só deitar no chão e esperar clemência do inimigo. Pouco a pouco fomos desarmados e levados à prisão. Nada de desconforto, mas tudo fedendo a ratos, que aliás, estavam por toda a parte.
Aliás, ratos nessas horas são muito úteis. Eles só vão nas ocasiões de conforto, em grupo, em busca de alimento, muito parecidos conosco, militares, mesmo nos dias de folga. Nós temos a necessidade de andar em bandos, cada um cuidando dos flancos, até para fazer uma simples compra de supermercado, somos facilmente identificados, falamos alto, rimos de tudo, fechamos a cara aos problemas e sapateamos em nossas próprias caveiras.
Dois ratos beliscam meus pés e descobrem minhas frieiras, primeiro o nojo, depois dou aquela mijada na cara desse roedor filha duma puta pra ver quem é o mais nojento aqui. Soldado X morre de rir da cena e começa aí uma mijação geral até que todos acordem.
Os passos dos idiotas ficam cada vez mais altos e nos colocamos em posição de defesa. Temos dois feridos na retaguarda e guarnecemos suas vidas com colheres de aço e testas moles de ferro.
Dizem algo parecido com Snoshkerfeld e vão embora. Dei de ombros e não entendi nada. Nem ninguém...
Jatos de água fria arrebentam meu peito e me jogam longe. Acordo dentro de um local escuro enquanto sou espancado por um covarde grande pra caralho.
segunda-feira, 1 de junho de 2015
segunda-feira, 20 de abril de 2015
Folhas de sangue
Caminhar sem saber o que nos espera. Um tiro a esmo, várias rajadas em resposta. Combatentes assustados, sem líder, sem direcionamento. O caos.
Nossos rostos pálidos, quase sem expressão.
Alguns até conseguem transformar a raiva em risos, de desespero mesmo, uma manobra para tentar enganar o medo.
Como sair de uma situação que, provavelmente, já está definida? Caso o pelotão fique, morre. Se avançar, poderá morrer do mesmo jeito. Mas ninguém aqui está disposto a esperar pela morte ou por uma prisão, o que seria pior, pois a tortura era resultado certo. Tudo bem que não entregaríamos nada ao inimigo, daríamos a vida ao invés de informações, mas não, prisão nunca! Luta, Força, Determinação, nossos lemas nunca irão se esvair.
Soldado Cunha decide virar para mim e gritar: "Vamos, faça alguma coisa! Vai ficar parado esperando um milagre?".
Nem milagre, nem nada. Um grito, um urro para melhor dizer, de dor, de sofrimento, corta nossos ouvidos. Nunca eu tinha ouvido algo igual. Era um inimigo sendo atacado por um dos nossos com a baioneta. Estávamos próximos demais a uma linha de defesa, ele era um batedor, prontamente recebido com nossas boas-vindas, graças ao Sargento Gk. Isso mesmo, Gk era o nome de guerra de Guilherme Klintschowsky, algo tão complicado de pronunciar, pelo menos para nós, em combate, que ficou Gk mesmo.
Mas isso tem um preço. Um batedor que não retorna ou responde ao rádio alerta o comandante de uma tropa. E nós estamos sendo observados. O atirador de elite pára de atirar, com certeza obedecendo a uma ordem, para que sua posição não fosse flagrada. Mas ele está ali. Pode estar com sua mira sobre a cabeça de qualquer um de nós.
Imediatamente nos deitamos. Sinto o cheiro da terra, preta, úmida, lembrança de casa, por quase 10 segundos saio dali, meu bairro, meus pais, meus vizinhos e amigos brincando, chuva...
"Contato! Contato!"
Linhas inimigas nos cercam e despejam todo o arsenal pesado possível. Estávamos sob fogo cruzado, deitados, com um cadáver inimigo em nossa posse e outro dos nossos ao lado. Respondemos com disparos intermitentes, tiros de economia, sem rajadas, sem granadas, mirar e atirar, errar e se deitar, acertar, recarregar, atirar de novo.
Nossos rostos pálidos, quase sem expressão.
Alguns até conseguem transformar a raiva em risos, de desespero mesmo, uma manobra para tentar enganar o medo.
Como sair de uma situação que, provavelmente, já está definida? Caso o pelotão fique, morre. Se avançar, poderá morrer do mesmo jeito. Mas ninguém aqui está disposto a esperar pela morte ou por uma prisão, o que seria pior, pois a tortura era resultado certo. Tudo bem que não entregaríamos nada ao inimigo, daríamos a vida ao invés de informações, mas não, prisão nunca! Luta, Força, Determinação, nossos lemas nunca irão se esvair.
Soldado Cunha decide virar para mim e gritar: "Vamos, faça alguma coisa! Vai ficar parado esperando um milagre?".
Nem milagre, nem nada. Um grito, um urro para melhor dizer, de dor, de sofrimento, corta nossos ouvidos. Nunca eu tinha ouvido algo igual. Era um inimigo sendo atacado por um dos nossos com a baioneta. Estávamos próximos demais a uma linha de defesa, ele era um batedor, prontamente recebido com nossas boas-vindas, graças ao Sargento Gk. Isso mesmo, Gk era o nome de guerra de Guilherme Klintschowsky, algo tão complicado de pronunciar, pelo menos para nós, em combate, que ficou Gk mesmo.
Mas isso tem um preço. Um batedor que não retorna ou responde ao rádio alerta o comandante de uma tropa. E nós estamos sendo observados. O atirador de elite pára de atirar, com certeza obedecendo a uma ordem, para que sua posição não fosse flagrada. Mas ele está ali. Pode estar com sua mira sobre a cabeça de qualquer um de nós.
Imediatamente nos deitamos. Sinto o cheiro da terra, preta, úmida, lembrança de casa, por quase 10 segundos saio dali, meu bairro, meus pais, meus vizinhos e amigos brincando, chuva...
"Contato! Contato!"
Linhas inimigas nos cercam e despejam todo o arsenal pesado possível. Estávamos sob fogo cruzado, deitados, com um cadáver inimigo em nossa posse e outro dos nossos ao lado. Respondemos com disparos intermitentes, tiros de economia, sem rajadas, sem granadas, mirar e atirar, errar e se deitar, acertar, recarregar, atirar de novo.
Assinar:
Postagens (Atom)