Caminhar sem saber o que nos espera. Um tiro a esmo, várias rajadas em resposta. Combatentes assustados, sem líder, sem direcionamento. O caos.
Nossos rostos pálidos, quase sem expressão.
Alguns até conseguem transformar a raiva em risos, de desespero mesmo, uma manobra para tentar enganar o medo.
Como sair de uma situação que, provavelmente, já está definida? Caso o pelotão fique, morre. Se avançar, poderá morrer do mesmo jeito. Mas ninguém aqui está disposto a esperar pela morte ou por uma prisão, o que seria pior, pois a tortura era resultado certo. Tudo bem que não entregaríamos nada ao inimigo, daríamos a vida ao invés de informações, mas não, prisão nunca! Luta, Força, Determinação, nossos lemas nunca irão se esvair.
Soldado Cunha decide virar para mim e gritar: "Vamos, faça alguma coisa! Vai ficar parado esperando um milagre?".
Nem milagre, nem nada. Um grito, um urro para melhor dizer, de dor, de sofrimento, corta nossos ouvidos. Nunca eu tinha ouvido algo igual. Era um inimigo sendo atacado por um dos nossos com a baioneta. Estávamos próximos demais a uma linha de defesa, ele era um batedor, prontamente recebido com nossas boas-vindas, graças ao Sargento Gk. Isso mesmo, Gk era o nome de guerra de Guilherme Klintschowsky, algo tão complicado de pronunciar, pelo menos para nós, em combate, que ficou Gk mesmo.
Mas isso tem um preço. Um batedor que não retorna ou responde ao rádio alerta o comandante de uma tropa. E nós estamos sendo observados. O atirador de elite pára de atirar, com certeza obedecendo a uma ordem, para que sua posição não fosse flagrada. Mas ele está ali. Pode estar com sua mira sobre a cabeça de qualquer um de nós.
Imediatamente nos deitamos. Sinto o cheiro da terra, preta, úmida, lembrança de casa, por quase 10 segundos saio dali, meu bairro, meus pais, meus vizinhos e amigos brincando, chuva...
"Contato! Contato!"
Linhas inimigas nos cercam e despejam todo o arsenal pesado possível. Estávamos sob fogo cruzado, deitados, com um cadáver inimigo em nossa posse e outro dos nossos ao lado. Respondemos com disparos intermitentes, tiros de economia, sem rajadas, sem granadas, mirar e atirar, errar e se deitar, acertar, recarregar, atirar de novo.
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