terça-feira, 27 de outubro de 2009

Saindo


Hoje eu morro. Pensei nisso várias vezes desde que entrei nessa enrascada. Nessas horas lembro bem de meus pais, quando tinha meus 17 anos e eles reforçavam a idéia de que entrar no Exército Inglês não me faria mais digno do que ninguém, que eu teria de seguir a carreira de advogado de meu pai ou mesmo a de médico, como minha mãe o fora antes de morrer. Mas não, quando se tem uma vocação você se esquece do dinheiro, do status, das convenções sociais e até mesmo se esquece de si mesmo.

Respirando ofegantemente, por causa do medo, me dirigi a um dos bancos e olhei para Ivan, meio que pedindo autorização para me sentar. Ele acenou um "não" com a cabeça e me encaminhou até a cabine. Não sei o motivo, mas fiquei mais tranquilo com isso.

Dois pilotos mortos estavam sendo tirados de dentro da cabine quando cheguei. Um deles não deveria ter mais de 30 anos de idade. O mais velho, cheio de condecorações e medalhas espalhadas pelo uniforme, devia ter uns 60 ou mais. Tive pena e raiva ao mesmo tempo, mas não era hora de me expressar. Um dos terroristas me acomodou num banco que fica atrás do co-pilto, acho que deve ser o assento do comissário de bordo. Que também tinha sido morto. Não entendendo mais nada do que eles conversavam entre si por causa da língua, permaneço imóvel. Estático e atônito, me perguntando qual seria o meu valor ainda vivo, já que militares estão no avião e valem estrategicamente bem mais do que um simples policial. Agora, quando o piloto terrorista entra em contato com a torre de controle falando em Inglês, começo a entender. Ele vai enumerando uma a uma as personalidades "interessantes" para o Governo Inglês não abater a aeronave. Então, reconheço o nome de uma delas: Jonh McMannan The Third, o deputado que tinha visto antes. E o filho da puta pertence à Família Real. Por enquanto estamos bem.

"Policial, deixa eu te dizer algo: você está prestes a testemunhar algo que irá mudar a vida da humanidade. Em sintonia com essa operação, outras aeronaves no mundo todo, inclusive no Brasil, participam do Dia do Terror. Articulados com várias facções libertadoras, estamos agora rumo à Pequim, cidade onde teremos asilo político e local de um fuzilamento em massa. Incluindo vossa pessoa, um belo plano, não?" - "Sim, só gostaria de saber o porquê você me contou isso. Não estou nem aí pra suas palavras, sejam elas cheias de ideologias ou não. Só me preocupo com o bem-estar de todos esses inocentes que vocês colocaram nessa. Solte-os, vamos negociar com a cúpula da Polícia Inglesa e a Interpol, poderemos entrar em contato com a Família Real e garantir a vida de todos vocês; estão cometendo um erro crasso se acham que sairão daqui sem arranhões!"
"Olha que para um policial o senhor até que fala bem. Mas agora não adianta mais, Sir Officer! Estamos a poucas horas do nosso destino. Antes de chegar lá, até permitirei que fale com alguém de sua família ao telefone." - "Se for por isso não se esquente à toa. Minha família toda sou eu mesmo." - "Comovente. Então ligue para o Diabo, talvez ele te dê atenção."
Ligarei sim, bastardo; e nessa ligação, farei o possível para que ele não te esqueça. Te vejo no Inferno!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Xeque


A manobra seria a seguinte: um dos aviões encostaria a asa no outro e os reféns seriam transportados para uma aeronave só. Ivan queria garantias de que todos pudessem passar, sem nenhuma outra "manobra estúpida", palavras dele, vinda da polícia. Ele me deu as instruções e pediu para que eu as passasse pelo rádio do segundo avião.

Um por um, os reféns foram se levantando e vestindo cada um deles uma roupa preta. Cada calça dessa roupa tinha um algarismo romano. O pano era quente e grudento, mais parecia com uma roupa de mergulhador. Começo a ficar tenso e perceber que o objetivo dos interceptadores dos dois aviões teria sucesso, pelo menos na primeira parte do maldito plano.

Ivan me ordenou a vestir a tal roupa também. Troço esquisito, tenho a impressão de que seremos todos jogados ao mar, para então esses idiotas emprenderem fuga. Não sei como, mas algo me diz isso. Entro na tal roupa e noto que o material dela é neoprene mesmo, usado em mergulhos marinhos. Os sequestradores vestem roupas de tripulação de vôo e seguem na frente. Um deles pára e diz em francês, alemão e inglês para dez passageiros saírem e permanecerem na asa do primeiro avião. Sem entender um pouco, eles saem. A moral da estória era fazer um cordão de isolamento dos dois lados da asa, para confundir os atiradores de elite. Mas, como todos sabiam, não seria a hora de atirar. Os passageiros saem do avião e dão de cara com um senhor, de aproximadamente 70 anos portando uma Uzi. Ele aponta a arma lentamente para cada um, como que dizendo: "Estou de olho em você."

Saímos do avião, eu, acompanhado de Ivan e sua 9mm nas minhas costas. Ao entrar na outra aeronave, um pouco mais luxuosa e maior que a outra, noto que há um grupo de militares preso. Todos amarrados e um deles morto, alvejado na cabeça. Sem parar o passo, continuo averiguando a situação: aproximadamente 45 pessoas dentro da primeira classe, mais umas 5o na classe econômica e o acesso ao compartimento de bagagens destruído. Uma escada improvisada mostra que a área estava sendo usada ou serviu de entrada para os marginais. Reconheço um dos passageiros, é um político, não sei ao certo seu nome, acho que Phillip, sei lá. Mas já vi a cara dele na Tv. Ivan me dá uma palmada nas costas e ri: "Hoje é o seu dia de sorte, policial, verá como a vista daqui de cima é melhor. Já andou de avião? Acho que não, pois seu salário mal deve sobrar para uma econômica, certo?"

Certo, idiota, mas já andei de avião sim e serei o primeiro a rir nessa sua fuça insolente ao arrancar seu coração.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Respire Fundo


As árvores de Goiânia cada vez maiores. Os motoristas reclamam da falta de visão em alguns semáforos, cruzamentos...Mas elas cresceram. E muito. As frondosas gameleiras do St Central vivem em (des) harmonia com o caos dos transeuntes acelerados, ciclistas, moradores de rua, estudantes em busca de sombra e os senhores de idade. Esses sim, dão uma aula de como era e como está a situação arbórea da capital goiana. Um velho amigo aqui do setor onde moro, Seu João, chegou a praguejar: "Esse povo é besta! Reclama quando não tem sombra, daí o prefeito planta pra dar a merda da sombra e os caras ainda reclamam que a árvore estorva!"
Pois é, Seu João, a gente tem mania de reclamação mesmo. Uma das mais frequentes é sobre a vida dos outros. Os outros estão errados, namoram a mulher errada, tem carros quebrados e desconfortáveis, andam em motos barulhentas, usam as drogas erradas, não sabem estudar direito, trabalham errado, chegamos até ao ponto de afirmar, sem conhecimento de causa que trepam errado. Devíamos respirar mais vezes. Achar o ar que existe dentro de nós e usá-lo. Usar o Diafragma, um importante aliado dos locutores, cantores e músicos. Antes de reclamar, tente respirar e respeitar (a) fundo. O Seu João fez uma reclamação após ouvir, dentro de um ônibus, o motorista de saco cheio por causa "dessa porra de galho velho", ele apenas observou uma queixa de um sujeito supostamente estressado e mandou o estresse dele para fora.
Nâo culpo meu nobre vizinho por reclamar às vezes. Mas falar mal dos outros ele não gosta: "Não é bonito, a gente tem é que ajudar o cabra a mudar de prumo..."
Taí, respirarei fundo mais vezes!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Me disseram pra parar


Opa. Me disseram pra parar com isso aqui. Uma alma caridosa muito preocupada com a minha independência financeira me garantiu que Blog nenhum dá dinheiro, nem futuro. E que o nome desse Blog é uma ofensa, jamais conseguiria eu adeptos ou mesmo patrocinadores. Bem, senhora verdade, o duro é que nada do que foi argumentado por vossa excelência sapiente é minha preocupação. Escrevo aqui porque gosto, não me preocupo com dinheiro através desse canal. A qualidade de meus leitores supera dados estatísticos. Não quero aparecer num programa enfadonho de TV por causa do Discórdia. Fiz esse blog até para me dar um pouco de sossego, pois aqui carrego a minha alma de pequeno e amador escriba.
Continuarei com meus textos "Psicopáticos e sem nexo", eles são o que quero que sejam, e não vai ser onda nenhuma de tsunami que vai me fazer parar. Aproveito para dar a dica: o site da Anistia Internacional. Talvez lá tenha algumas pessoas que pensem como eu, que o dinheiro é ótimo, desde que seja para todos. E viva o Discórdia! Viva!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Arrependimento e Fúria.


Acordo meio tonto e vejo o sorriso sarcástico de Ivan, "O número1". A vontade era a de esganá-lo, cortar as suas orelhas e oferecê-las aos seus comparsas. Mas o que acontece mesmo é uma seção de porradas na minha cara e uma sermão de merda. Ouço tudo o que um idiota poderia ouvir numa hora dessas. Que a polícia era isso, que eu era aquilo. Um monte de merda.
"Então, depois dos belíssimos tiros disparados pelo seu atirador de elite, temos aqui dois presentes para a Inglaterra: duas crianças, uma francesa e outra dinamarquesa. Esse lindo francesinho de 7 anos e aquela mocinha ali, vinda da escandinávia...11 aninhos de idade. Lindos, não?"
Dois tiros. Certeiros. Um na testa do francês e outro no meio do peito da dinamarquesa. Eu, preso a um banco, grito "Covardes" enquanto os passageiros pediam clemância. As duas crianças são arremessadas para fora do avião. O som que vem do aeroporto é de um coro uníssono. Arrependimento e fúria. Sei que seremos crucificados mais uma vez por essa ação leviana de adentramento que me parece frustrar qualquer boa expectativa. Mas não desisto enquanto não conseguir um acordo.
"Ivan, tudo bem, você me provou que é um homem de palavra. Agora está na hora de pelo menos amenizarmos essa situação. Me solte, deixe-me conversar com você e veremos o que posso fazer." "Ahahaha! O senhor pode morrer para começo de conversa. Mas antes, quero que diga aos seus espertíssimos superiores, usando o rádio do avião, que liberem a chegada dos meus convidados de honra. Eles chegarão em poucos minutos."
"Ivan, uma hora dessas eles já foram identificados e o vôo jamais pousará em lugar algum. A aeronática certamente vai abater o avião. Escuta o que digo." Ele dá uma palmada leve no meu rosto e diz: "Será mais uma demontração de desleixo desse país podre."
Tento, em vão, negociar com o Chefe de Polícia da Scotland Yard o pouso da outra aeronave. Ele me diz, enfaticamente que não negociaria com os interceptadores e que nada poderíamos fazer a não ser esperarmos o combustível da aeronave acabar e resgatar os ocupantes em alto-mar. Passo o comunicado aos sequestradores e eles riem bastante. Gargalhadas altas e nervosas ao mesmo tempo. Ivan pega um celular e disca uma combinação de números. Fico tenso. Passo a desconfiar que....E era mesmo. Uma parte do saguão do aeroporto explode. Um pouco abaixo de onde a polícia estava instalada. Meus dentes cerram e minha mente dói. Uma dor de cabeça da pancada que recebi misturada ao ódio. Estou impotente. Nada posso fazer. O rádio do avião começa a zumbizar alguma coisa. Ivan entra na cabine e diz, em alemão: "Isso que aconteceu pode acontecer de novo em qualquer parte da Inglaterra, Espanha, Alemanha e Hungria. Basta que os senhores me desobedeçam de novo!"
Nâo consigo ouvir a resposta, mas Ivan sorri ao voltar. Conseguiram o que queriam.

Seis jardas

Corri para perto da cabine, local de onde entrei no avião; os vidros quebrados me deram a idéia de retornar, mas logo meus colegas começaram a gritar e vi um dos sequestradores cair duro na minha frente. Era um dos que estavam na parte mais baixa da aeronave. Talvez ele estivesse tentando decolar ou mesmo fechar as entradas que ficaram abertas pela gente. Junto dele, uma AK-47 em perfeito estado, parecendo ter sido feita no dia anterior. Muita munição e três pedaços de papéis nos bolsos. Não os li, mas me pareceram notas de suicida. Comecço a gritar: "Número 1! Deixa eu subir aí, vamos continuar nossa conversa!" Não obtenho resposta. Olho para os lados e um dos policiais gesticula pra que eu corresse. Iria me dar cobertura. Nego. Digo que não quero abandonar os reféns. Stanz me joga uma sacola preta. Parece um saco plástico. Consigo apanhá-la. Um comunicador e uma garrafa d'água. Coloco o rádio no ouvido...
"Cara, é o seguinte, o Primeiro Ministro disse que um dos passageiros é Libanês, uma espécie de autoridade política. Ele estaria concuminado com esse grupo aí. Você conseguiu identificar alguém?"
Faço que não com a cabeça; "Tá legal. Então vê se tem um papel aí dentro dessa sacola e escreve pelo menos de onde você acha que eles são e quantos." Escrevi o que achava e comecei a ficar preocupado com esse papo de autoridade libanesa. Pra mim, isso não tinha nada a ver, já que eles mais pareciam ocidentais mesmo, motivados por outra coisa. Ainda mais por causa da outra aeronave que iria fazer parte do sequestro. Mas uma coisa me veio à cabeça: como eu iria sair dali, como faria para continuar as negociações? E agora, que Irana estava morta, quais seriam as instruções dos sequestradores? Minha mente está confusa, não consigo pensar direito e ainda nem se passou muito tempo assim.
"Policial!" A voz vinha da cabine. "Oi, estou aqui, pode falar!" Pegue essa corda e suba para a cabine. Avise ao atirador de elite para que ele não faça nenhuma gracinha, tenho uma refém comigo."
"Alô, Stanz. Diga ao sniper para ele cessar fogo, vou voltar ao interior." Instruções dadas, grito um "Pronto" e eles jogam uma corda. Subo e deixo o rádio ao lado do trem de pouso. Dentro da cabine, uma senhora de uns 60 anos, assustada, me aponta o caminho de entrada. Passo por ela e vejo que um de seus olhos pisca para mim. Ela então corre e se joga para fora do avião. Me volto para a frente e recebo uma porrada bem no meio da minha cabeça.