
Você está correndo atrás do seu celular para saber as horas. O diabo do aparelho começa a tocar, dando pistas de onde ele está. Daí, você acha o danado. Todo orgulhoso, atende o telefone. Na verdade era o alarme dizendo a hora de acordar. Mas, você já estava acordado. Graças a um zumbido incessante do computador, seu outro despertador científico.
Caminhando até a cozinha, para preparar uma bela refeição insossa de microoondas, acha mais um artefato dos deuses japoneses; seu MP7... Olha pra ele, ele te "responde", zuim-troinc-bleck-bum... Demora um pouco mas você até consegue entender o que o aparelho quis dizer: "Carregue a bateria." Num ato quase que involuntário, estica-se o braço, pluga-se o que mais parece um maço de cigarros na parede e outro zunido confirma a recarga.
O lanche de hoje é empanado de frango ao molho sem-graça. Para beber, suco de água com gosto de maçã, feito aqui mesmo, numa cidade perto de Goiânia. As horas no relógio digital de pulso ( esquecido no começo do enredo ) marcam: atrasado.
A água do chuveiro dá lugar a uma rápida esguichada de torneira de pia. Banho de gato, dente escovado, "Cadê a merda da chave do carro?". O celular tem a resposta, na parte da agenda escrita: "Amor". Ela responde, que quando se chega em casa, normalmente a chave fica pendurada no chaveiro da parede, ao lado do relógio despertador. "Ah é mesmo!". O carro liga numa boa, está pronto para ser castigado pelos pés e mãos de um motorista apressado, com medo de broncas futuras. Na portaria do trabalho, outra surpresa: você se esquece da prova que existe na empresa: maldito crachá! Ligação para o chefe do seu departamento, que nem sabia do seu atraso e agora sabe das duas mancadas. Ele autoriza sua entrada desde que a reunião, que era para discutir metas, mude a pauta para "Discutiremos a sua importância aqui dentro".
Aparentemente, ele está bem, o seu chefe; sua cafeteira não estragou, o ar condicionado marca 16ºC, os celulares brilham a cada mensagem do Campeonato Brasileiro recebida, o Orkut bomba de mensagens das gatinhas de 15, 16 anos, conhecidas em noitadas anteriores, a chave do carrão pede: "me use!".
Uma bronca a mais outra a menos, o quê fazer? Mas, no meio da reunião, o SEU celular toca, quem é? "Amor". Você não atende. Ele toca de novo e seu chefe manda você pastar em lotes de outra empresa. O telefone toca de novo, de novo, você puto de raiva atende dizendo: "Que merda, por sua culpa, perdi a porra do meu emprego!". Ela, toda calma, lhe responde: "Nasceu, amor! Ela é linda! Perfeita, tem seus olhos!". Depois da mancada, você se compromente a ir até o hospital, local de onde saiu de madrugada, porque não poderia perder uma reunião importante no trabalho e não daria para assistir ao nascimento de sua primeira cria. Sentindo-se como um cão sem rumo, automaticamente desliga o telefone, para não ser importunado no caminho. Antes de comprar as florres e os chocolates, se incomoda com uma vibração: seu pager, dizendo para atender o telefone com urgência. Obedece ao comando, liga o celular, olha as horas, não compra nem flores e nem chocolates. Se surpreende com a voz dizendo: "Você foi aceito, venha trabalhar conosco, seu currículo e referências são ótimos!" Cai no chão de tanta alegria e se lembra daquele detalhe de apenas minutos de vida te esperando... E aí, o quê fazer?