Após vários murros e pontapés, o torturador me deixou em paz. Nem sequer perguntou nada, não sei se pela falta de conhecimento de nossa língua, ou mesmo se estava ali só para "relaxar" meus músculos.
Não consegui dormir, até por medo de uma convulsão, por ter apanhado uma penca de vezes na cabeça. O que me assustou mais, além das surras que levei foi ter de ouvir alguns da tropa serem eletrocutados em outras celas. A violência contra os outros parece que dói mais do que em nós, em certos casos.
Uma sequência de saraivadas entrou através das paredes do meu "quarto improvisado", pelo som, eram nossos aliados, mandando chumbo contra o quartel. Alívio e preocupação, pois os tiros vinham da artilharia pesada, o que poderia causar baixas dos dois lados.
O chão é o limite, pensei, rastejando contra a parede de entrada da cela, consegui, depois de muito esforço, alcançar o cantil de um inimigo alvejado. Nunca beber água foi tão bom na minha vida!
Procurei por armas, mas apenas um canivete, dentro de um bornel, aliás, cheio de comida, ainda bem!
Os inimigos recolhiam o que podiam levar e, pouco a pouco iam incendiando tudo. Me fingi de morto, aproveitando a poça de sangue formada pelo meu espancamento anterior e, com ajuda de todos os santos, evitei um disparo de misericórdia.