A estratégia agora é simples: pousar na Rússia. Talvez lá trocar de avião ou mesmo abortar o plano. Os sequestradores não tinham mais as feições de calma e sarcasmo, estavam bem mais nervosos do que nós. A Rússia poderia ser o começo do sucesso ou mesmo o território de um massacre, pois o governo de lá não é o mais pacífico da Terra.
Ivan cuidou para que o buraco fosse parcialmente tampado, mas a despressurização de todo o avião deixou o ar rarefeito, todos respiram através das máscaras. Vários passando mal e vomitando, o efeito é imediato.
Minha cabeça agora só pensava em uma coisa: se for para morrer, morrerei lutando. Não quero me esborrachar no meio da Praça Vermelha e ter meus restos mortais misturados ao de Lênin e Marx sem que tenha lutado. Dois lutadores da História não concordariam em dividir túmulos com um covarde. Sou inglês, de descendência escocesa, sangue de guerreiros corre em minhas veias, que começam a sumir, fico fraco e tenho a sensação de um desmaio.
"Ivan, estamos sendo escoltados por caças russos. Eles não entraram em contato ainda, mas estão fazendo manobras de interceptação." - "Seja mais franco, idiota! O que é isso?"
"É exatamente o que ele está lhe dizendo, Ivan.Eles estão se posicionando atrás do avião e piscando um alerta e fazendo manobras em X.Vão atirar." - "E desde quando você sabe alguma coisa sobre isso, policial filho da puta?" - "Ele está certo, Ivan, ele está certo!"
Não há mais ar para respirar. Só o gosto e cheiro da morte. Uma coisa amarga e com cheiro de sabão barato. Não vi nenhum filme sobre a minha infância, nem memórias boas. Só sinto o cheiro de naftalina no ar e sinto o pânico de todos nas minhas costas. Os passageiros rezam, gritam, soltam as máscaras, se debatem. São espancados pelos sequestradores, que estão fracos e zonzos. Uma 9mm cai e ninguém percebe, só eu e um dos militares. Ele acena um sim com a cabeça e olha para a direita. Entendo a mensagem. Um dos sequestradores está de costas. Pego a pistola e sento em cima dela. Quisera eu não estar com essa roupa ridícula de mergulhador.
"Vamos cair! Vamos cair! Atenção! May Day! May Day! Vôo 1234, pedindo permissão para pousar na pista! Pelo amor de Deus! Caindo! Estamos perdendo altitude!"
"Permissão negada, piloto! Aqui quem fala é o Comandante dos Migs, o senhor será interceptado em dois minutos. Saia do espaço aéreo russo e será poupado, caso contrário, atiraremos para matar."
Bom, agora ferrou tudo de vez mesmo. Os russos nem sonham em dialogar com essa corja. Coisa que deveria ter sido feita há tempos pelo governo inglês. Eu ainda mato esses parlamentares bichas.
"Nossa viagem está chegando ao fim.Mas eu vou dar um jeito." O piloto manobrou bruscamente para a direita e ouvimos um barulho, algo que teria batido na cauda do avião. Não consegui entender, mas um comunicado veio dos caças. Acho que o animal jogou o Jumbo pra cima de um deles. Agora a manobra é de descida, tiros de metralhadora ecoam no fundo de nossa aeronave. Pelo som, a Uzi do "velho cagão", deve estar fazendo o favor a um dos reféns...Consigo vestir uma jaqueta ensanguentada de um dos comissários de bordo. Agora coloco a pistola num dos bolsos, aquele bolso interno que fica no peito esquerdo. Não sei se ela está municiada, mas, pelo peso, acho que sim.