quinta-feira, 10 de setembro de 2009


Em questão de segundos uma mulher se coloca na minha frente. Ela aponta uma M-16 para frente e, provavelmente, uma pistola às costas de um suposto refém encapuzado. Deixo-a sair e comando o cessar fogo para a equipe de retaguarda. Mas mantenho minha arma em direção aos dois, caso isso fosse um blefe, estariam mortos. O Delegado não entende e começa a praguejar para que atirássemos. Digo que não. Para ficar quieto e negociar com a "suspeita".
Os dois conseguem sair, imediatamente são iluminados pelo facho de luz de nosso apoio aéreo. Comando a entrada e Stanz aparece no meu visual. Ele está ferido, mas consegue andar. Acho que acertaram o ombro do animal. Mas Stanz não titubeia. Segue firme. Me coloco à sua frente e dou os primeiros passos em direção ao andar de cima. Convoco o apoio aéreo para entrar pelas janelas depois do meu sinal. Não obtenho resposta. O Delegado manda eu parar. Paro. Respiro. Ouço a respiração fraca de Stanz. Mando ele sair com um gesto. Ele não obedece. "Stanz, sai daqui, você vai morrer, idiota!" Nada.
Beleza, espero e noto uma gritaria do lado de fora. Cinco disparos e oito respostas, todas do andar de cima. Subo as escadas, Stanz sobe também e notamos o quanto estávamos fodidos. Oito caras se voltam para nós e nem pensam. Mandam chumbo. "Merda! Merda! Desce, velho, desce!" Damos de cara com outra equipe que ordena a nossa volta. Me jogo no chão. Stanz joga uma granada de gás. Tento empunhar meu fuzil e tremo. Vacilei. Me chutam de lado e caio no térreo. A mulher me olha no fundo de meus olhos e atira. Atiro quase ao mesmo tempo. Nós dois caímos. Eu me joguei, ela sei lá o que aconteceu, mas agora estava sozinha. Ela tenta se levantar e descarrego outra rodada em direção ao seu joelho. Esmigalho a perna dela, grito e me levanto. "Abatida!"
Ouço os passos firmes no andar de cima. Muitos tiros. Vários gritos. Lanço fora o fone do meu ouvido e jogo fora também minha máscara. O som melhora. Meu ouvido agora só zune enquanto recarrego mais uma rodada no fuzil. Subo e dou de cara com o corpo de Stanz, sem arma e mole, sem expressão no rosto. "Médico!" Esqueci que não estava mais no exército e que a equipe médica estava no ar, em outro helicóptero.
As janelas se quebram com os disparos da M-50 vindos de cima. Os Anjos começaram a dar suas cartas. Mais uma vez no andar de cima visualizo agora cinco policiais contra seis sequestradores. Atiro em um deles e o jogo longe. Estava de colete. Atiro mais uma vez e erro seu pé. Me esgano de raiva e atiro em um dos seus braços. Acertei. Sinto uma picada de marimbondo na minha batata. Dancei. Caio no chão e grito, como se estivesse sendo ouvido. Mas não tenho mais rádio. Fico em posição de tiro deitado mesmo e grito para Murddock o meu nome. Ele me ouve mas nem se vira. Inferno no quintal do inimigo. Cápsulas caem no assoalho de madeira ecoando o som da dança sangrenta. Sou puxado e jogado escada abaixo. Carl sobe com uma calibre 12 espalhando o caos e a violência gratuita dentro do cômodo.
Acabou. O silêncio que vem é mentiroso. Uma calma aparente, empolgante e dura. Morreram todos. Pelo menos foi o que pensei. Gritos de dor se misturam às gargalhadas de uma voz que não conheço. Mais três tiros silenciados. Perdemos a batalha. Três reféns mortos e um sequestrador suicida. Vou ouvir muito essa noite. Nem sinto mais dor. Uma enfermeira pergunta se estou bem e não ouve nada de respota. Só um grunhido de raiva.
O Delegado entra fazendo não com a cabeça. Passa por mim como se eu fosse um abajur.

Camarões


Três e meia da manhã. Todos vidrados, acordados e aguardando ordens para entrar no cativeiro. Três reféns importantíssimos para o governo e nada relevantes para a sociedade esperam ansiosos pela nossa entrada. Aliás, eles nem sabem que estamos aqui, só devem desconfiar e achar que somos atrasados, que os gastos com a polícia local deveriam dar resultados, que políticos sequestrados seriam facilmente rastreados, essas merdas...
Só sei que meu nervosismo se transformou em calma. Uma calma perigosa de quem não sabe o que vai acontecer e que tem, por obrigação, manter a fachada de homem centrado. Murddock me olha e dá o sinal. Corre-se. Muito. O som de nossas botas incomoda meus ouvidos, penso que poderíamos ser alvejados de imediato. Mas o sinal seria dado só em caso de extrema decisão. Calculadas as hipóteses de sermos descobertos e subtraídas as chances de sucesso aliadas às nossas condições, começamos a entrar.
Dois tiros. Um deles, uma bomba de fumaça. O outro, uma de gás de pimenta. Várias armas são preparadas para o tiro dentro da casa. Começa a carnificina. Vejo que Murddock e Lavej são vistos. Lavej se esconde atrás de um carro e Murddock segue em frente fazendo zigue-zague. Tento dar cobertura, mas meu ângulo de tiro é cego. Não posso atirar, com medo de acertar um parceiro; jogo uma granada de luz e som, a famosa flashbang, preferida dos videogammers....Ela entra por uma janela e cumpre o prometido. Por 12 segundos não temos resposta do inimigo. Entro. Vejo quatro encapuzados, todos com pistolas e fuzis automáticos. Fico sem resposta e recebo uma ordem pelo rádio:"Anda, cara! Atira!"
Cinco polegadas abaixo de minha mira está uma granada pendurada no pescoço de um dos sequestradores. Não sei como, mas consigo explodí-la, provocando a morte dele e o ferimento dos outros três. Era uma granada de impacto, de 12 kg de força frontal. Russa, militar. Esses caras têm um fornecedor dos bons. Na certa é um dos que está como refém. Ouço o estampido da granada e saio da cozinha. Um erro. Não se entra no cativeiro e depois sai; se entrou, entrou e pronto. Mas meu ouvido esquerdo sangra e não consigo escutar porra nenhuma do rádio. Chamo a Central e comunico meu ferimento. Stanz me puxa para a direita e deflagra uma saraivada de cartuchos 9mm. Todos eles com endereço certo. As janelas do andar de cima. Vários observadores se escondem e saem da linha de tiro. Entendo o recado, espero a rodada de Stanz terminar e logo em seguida dou o meu recado. Consigo acertar um deles de raspão e corro em direção à casa. Só que agora mudo minha entrada. Stanz me substitui e entra pela cozinha. Ninguém o recebe. Estão na parte de cima mesmo. Murddock canta a pedra pelo rádio. "Granada!" Outro barulho seco. Mais uma flashbang. Um grito de socorro é seguido de dois disparos silenciados. "Perdemos um refém,imaginei."
O sangue nos olhos dos sequestradores se transforma pouco a pouco em medo. Um deles resolve se entregar e é morto antes de colocar a arma no chão. Um erro nosso. Mas a possibilidade de blefe nos ajudaria em um processo administrativo. Não é hora para se pensar nisso. Entro na casa e não vejo nada. Uma fumaça verde com cheiro de pimenta do reino entra pelas minhas narinas e começo a tossir. A merda da minha máscara não está mais funcionando...