
A manobra seria a seguinte: um dos aviões encostaria a asa no outro e os reféns seriam transportados para uma aeronave só. Ivan queria garantias de que todos pudessem passar, sem nenhuma outra "manobra estúpida", palavras dele, vinda da polícia. Ele me deu as instruções e pediu para que eu as passasse pelo rádio do segundo avião.
Um por um, os reféns foram se levantando e vestindo cada um deles uma roupa preta. Cada calça dessa roupa tinha um algarismo romano. O pano era quente e grudento, mais parecia com uma roupa de mergulhador. Começo a ficar tenso e perceber que o objetivo dos interceptadores dos dois aviões teria sucesso, pelo menos na primeira parte do maldito plano.
Ivan me ordenou a vestir a tal roupa também. Troço esquisito, tenho a impressão de que seremos todos jogados ao mar, para então esses idiotas emprenderem fuga. Não sei como, mas algo me diz isso. Entro na tal roupa e noto que o material dela é neoprene mesmo, usado em mergulhos marinhos. Os sequestradores vestem roupas de tripulação de vôo e seguem na frente. Um deles pára e diz em francês, alemão e inglês para dez passageiros saírem e permanecerem na asa do primeiro avião. Sem entender um pouco, eles saem. A moral da estória era fazer um cordão de isolamento dos dois lados da asa, para confundir os atiradores de elite. Mas, como todos sabiam, não seria a hora de atirar. Os passageiros saem do avião e dão de cara com um senhor, de aproximadamente 70 anos portando uma Uzi. Ele aponta a arma lentamente para cada um, como que dizendo: "Estou de olho em você."
Saímos do avião, eu, acompanhado de Ivan e sua 9mm nas minhas costas. Ao entrar na outra aeronave, um pouco mais luxuosa e maior que a outra, noto que há um grupo de militares preso. Todos amarrados e um deles morto, alvejado na cabeça. Sem parar o passo, continuo averiguando a situação: aproximadamente 45 pessoas dentro da primeira classe, mais umas 5o na classe econômica e o acesso ao compartimento de bagagens destruído. Uma escada improvisada mostra que a área estava sendo usada ou serviu de entrada para os marginais. Reconheço um dos passageiros, é um político, não sei ao certo seu nome, acho que Phillip, sei lá. Mas já vi a cara dele na Tv. Ivan me dá uma palmada nas costas e ri: "Hoje é o seu dia de sorte, policial, verá como a vista daqui de cima é melhor. Já andou de avião? Acho que não, pois seu salário mal deve sobrar para uma econômica, certo?"
Certo, idiota, mas já andei de avião sim e serei o primeiro a rir nessa sua fuça insolente ao arrancar seu coração.