
Até mais tarde. Ela disse isso olhando no fundo de meus olhos, me dando medo. Sua frieza. Seu tato frio e macabro. Odeio despedidas. Assim como odeio quem odeia despedidas. Mas não chego a me odiar. Ainda não. Minhas feridas causadas pelo tempo me ensinaram a recuar enquanto é cedo.
A realidade num campo de batalha parece melhor visualizada em preto e branco. As cores podem confundir os olhos de quem a assiste, e, o pior, fazer com que a batalha fique bela. Tudo bem que em preto e branco ainda é possível beleza. Mas a energia dessas cores despejam todo o peso existente dentro de um "battlefield". Olho para cima e vejo que a manhã ainda é tímida, cinza e sépia, o sol há de vir, mas não sabemos se o veremos hoje.
O General inimigo soube bem contornar boa parte de suas baixas e posicionou vários batedores e eles deram as coordenadas exatas de nossa posição e de nosso armamento, por causa do jeito que nos atacaram ontem. Perdi um dos meus melhores amigos, amizade de guerra, feita no navio ainda. Não sei se conseguirei transparecer calma e decisão à minha pequena tropa hoje. Nossa missão ainda é defensiva, guardar nossos mantimentos e munição, enquanto o Coronel Luz avança em ofensiva silvestre. Nossa tática é enfraquecer a ofensiva contrária e dar suporte ao próximo ataque aéreo. E ele sempre demora, por causa das condições do relevo aqui. Muitas montanhas, ataques de helicópteros e o medo são inimigos das nossas aeronaves.
Temos menos de meia hora antes do próximo ataque inimigo. Ontem contei vinte e sete soldados mortos por mim, pelo menos o que eu achei. Nosso campeão ainda é a "Mãe 60", apelido dado ao nosso artilheiro. Ele está fraco, visivelmente incapaz de pensar e surdo, depois de ter resistido a uma granada de impacto. Nossos rapazes não sabem mais para onde atirar. Nem eu. Espero que daqui a quinze minutos tenha boas notícias pelo rádio de Luz. Isso se ele estiver vivo e o rádio ok.
Quando ela prometeu que eu a veria mais tarde, não acreditei. Mas essa batalha, truncada, tinhosa e violenta ainda pode ser vencida. Ainda pode.
Soldado Gomes traz as notícias. Coronel Luz e sua equipe avançaram, após 21 baixas. Até que fomos bem, considerando que a Delta 5 luta há 34 dias sem sossego. Meu comando é que esperemos se o inimigo contornou mesmo a montanha e quais seriam nossas chances de sobrevivência frente a uma ofensiva. Acredito que parte dos adversários tenha recuado, em manobra de defesa ao front deles, mas boa parte está vindo para cá, em virtude de nossas escutas pelo rádio. Temos mais de uma tonelada em armamento, munição e remédios, o que vale mais do que qualquer cantil de água nesse lugar calorento.
Pela luneta de meu rifle vejo um sniper. Ele se mexe vagarosamente, em busca de uma árvore, mais ou menos a 50 metros dele e a 120 metros de nós. Os homens pedem para que eu atire, mas espero. Sei que ele me viu e sei que nem por isso pararia sua manobra. Alerto para a possibilidade de outros atiradores estarem posicionados no perímetro. Todos a postos. O cheiro de sangue corre no ar. Um cheiro de coisa amarga. Um fedor aliás.
O som é seco. Estampido de rile e um de nossos capacetes tilinta. Moraes está morto. Talvez o calibre seja um 0.50mm. Sem chances, "fogo à vontade". Toda a tropa visualiza aquilo que seriam 120 inimigos em formação romana, algo quase não usado nos dias de hoje. A artilharia começa a mirar os morteiros, o silêncio morre, pouco a pouco. Não há um pássaro sequer, nem mesmo insetos figuram entre nós. Só barulho de botas pisando a esmo um chão seco, amarelado e arenoso. De repente a formação romana se abre e dois tanques mostram suas caras.
Coronel Luz nos alerta pelo rádio sobre aquilo que víamos com nossos olhos: "Dois tanques escoltados! Dois tanques escoltados!". Um massacre. Acho que agora somos, no máximo, 45 soldados. Vejo a morte cada vez mais perto de mim, sorrindo e me dizendo: "Vim te buscar, demorei, não?". Demorou. Aqui cada segundo é uma eternidade. Nossos artilheiros tremem. Suas mãos já não conseguem carregar as bombas. Suas cabeças se voltam a mim. O olhar é de quem pergunta: "Vamos viver?".
Não sei...
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