terça-feira, 22 de setembro de 2009

Ivan


"Você pode me chamar de número 1."

Começo a conversa, já perguntando ao "1" o que eles queriam, como poderíamos ajudar e qual a quantidade de reféns que eles tinham sob poder. Ele não deu muitos detalhes, mas seu sotaque acentuado me lembrou algo como um irlandês, não um eslavo, como havia pensado antes. Os reféns que nós conseguimos libertar fizeram parte de um esquema bem maior que um simples sequestro aéreo.
"Você ouve. Eu falo. Você irá descer aqui, na parte de bagagens do avião, desarmado e sem escuta. Providenciarei para que isso realmente aconteça, sob a pena de um refém morto para cada desobediência por sua parte ou o resto dos policiais. Antes de descer para cá, você irá ordenar a imediata evasão de TODA a sua equipe desse avião. Com exceção de Irana e você; caso não saiba, ela faz parte do time que entrou aqui, provavelmente na mesma equipe de abordagem que você está participando. Ela é nossa infiltrada e irá fazer a sua custódia. Nada que você pensa importa para mim ou para os meus amigos. Agora vá, dê as ordens, sem que os outros saibam da condição de Irana."
Chamei a equipe toda à cabine de vôo. Alguns se demonstraram surpresos, outros aliviados, já que o ar condicionado não funcionava e o calor começava a incomodar. Stanz não autorizou a manobra. Tive de colocá-lo na linha com o número 1. Após uma conversa rápida ele cedeu. Estávamos perdendo espaço. E eu, mais ferrado do que imaginava.
Dei um toque na policial e ela cuidou do resto. Colocou praticamente todos os homens pra fora da aeronave e fechou uma das portas da cabine. Sem ela perceber, manchei seu colete com uma tinta indelével e invisível ao olho nu, só perceptível através de um equipamento de visão noturna. Fiz isso na esperança que nosso sniper entendesse, pois a cabine era escura e ele deveria estar usando esses óculos. Irana seguiu em frente e parou no primeiro lance de escadas. Sempre séria, ordenou de forma mecânica que eu me disvencilhasse de minhas coisas. Senti vontade de rir, mas a obedeci, sem nunca deixar de olhar nos seus olhos e odiar o que estava acontecendo.
Agora sou uma pomba sem asas num covil de cobras famintas. Desarmado, sem colete a prova de balas e sem comunicação. Só a minha camisa preta e minha calça. Nem a joelheira passou desapercebida por Irana. Descemos, eu na frente, sendo rendido por Irana e a MINHA submetralhadora. Um dos guardas me parou e mandou que eu tirasse as calças, botas e camiseta. Fiz tudo o que ele me mandou e ele entregou uma roupa ridícula, que mais parecia de entregador de pizza. Algo ligado ao aeroporto. Acho que uma roupa de orientador de tráfego de pista. A vesti, e percebi que Irana ria pela minhas costas, a vadia devia estar se deliciando: "Olha esse otário. Mal voltou de uma operação frustrada e está aí, servindo de isca de tubarão."
Contei 34 passageiros e 7 membros da equipe de comissários. Todos amarrados e entrelaçados. Cada um amarrado no outro. Quietos. Alguns dormindo, suando, com medo, pânico. Presas dentro da jaula. Notei alguém me fitando, do outro lado, me chamava com gestos. Fui andando e marcando alguns detalhes que poderiam salvar vidas. Mas não era hora para falso heroísmo, até porque eu não tinha condição alguma para tanto. "Você é o policial? Ótimo. Olhe essa foto. Esse é Ivan Mardrek Svanovic, preso no seu país há 23 anos. Daqui a pouco ele virá aqui para falar com você."
Confesso que não entendi uma palavra do que esse idiota me disse, mas, mesmo assim concordei e não respondi nada. Apenas lamentei que a Inglaterra pudesse ter dado essa mancada. O tal Ivan aparece e me ri, dizendo:
"Sou o número 1, pateta. E você, Agente Paul, vai contar ao público inglês toda essa nossa tragédia com hora marcada. Dentro de 20 minutos, outro avião, só que dessa vez militar, pousará ao nosso lado, trazendo nossos brinquedinhos explosivos. Sei que está doido para oferecer isso e aquilo para acabarmos de vez com essa palhaçada. Mas, lembre-se disso: essa é uma missão suicida. Todos aqui estão preparados para morrer, menos essa corja de americanos, espanhóis, suíços, alemães, esses turistas idiotas que ainda acreditam na beleza dessa merda de Reino Unido."
"Olha, Ivan, não sei exatamente o que vocês querem, mas ainda acho que podemos pelo menos tentar outra saída. Principalmente se há política no meio disso aqui tudo. O que não vai acontecer é mais gente ter que morrer pra darmos um fim nisso, você concorda?"
"Agente Paul. O senhor é mesmo um babaca nato. Tem todos os vícios que um policial metido a esperto poderia ter, só que hoje essa negociação será frustrada. Várias pessoas, inclusive nós dois vão morrer aqui, nessa espelunca que chamam de aeroporto. Minhas condições serão as seguintes: o senhor e essa leva de turistas espantados irão permanecer aqui até o próximo avião pousar. Daí, um a um, levanta e vai até a pista, todos misturados à minha equipe, inclusive Irana e você, que, no caso, terá sua identidade confundida com a de um orientador de pista. Nisso, iremos carregar esse avião aqui com explosivos e voltar o outro para o hall do aeroporto, o senhor me entende?"
Acenei com a cabeça e me lembrei do spray na roupa de Irana. Farei o máximo para que o sniper, agora supostamente sem o equipamento infra-vermelho perceba. Não sei como, mas terei de retardar esse plano em 12 horas, para que o dia acabe e a penumbra me ajude. Pedirei tempo, vou tentar negociar mais.
"Não há possibilidade de acordo com esse governo, Ivan. A política anti-terrorista inglesa vai massacrar todos nós. Nenhuma aeronave irá conseguir se aproximar daqui. O espaço aéreo de toda a Inglaterra e, talvez da Europa está sitiado e mantido sob vigilância da Aeronáutica Real e outras esquadrias. Se brincar até os norte-americanos estão aqui. Sou da polícia local, mas tenho influência na Interpol, posso te ajudar a sair daqui, até me disponho a ir ao destino final. Conseguiremos asilo político de onde vocês vieram. Mas clamo pela paz. A qualquer custo."
"Bem, meninos, temos aqui o que chamo de talento disperdiçado. Talvez se fosse um líder de esquerda ou mesmo da situação dessa engano que é a Inglaterra, o senhor tivesse mais fortuna. Mas não, vc é a corja, parte de um sistema falido e prepotente, a merda da sociedade. O anti-herói, que hoje vai ser o nosso palhaço, nosso bobo da corte."
Todos, inclusive alguns reféns riram. A vontade que me dá é a de pular no pescoço desse velho idiota e puxar suas veias uma a uma, com minhas próprias mãos. Acho que até devo fazer isso, mais pra frente. Ouço o estrondo de uma granada vindo do chão. Somos nós, com certeza. E agora melou tudo de vez. Coordenadamente, 6 criminosos saem em fila dupla, uma formação meio burra, mas que de vez em quando funciona. O duro é que Ivan, o número 1 está puto. Muito puto.

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