
Um mês passa rápido na cabeça de quem não se aquieta por nada. Não descansei, não cuidei do meu ferimento e fiquei pendurado em todas as modalidades modernas ou não de comunicação. Não me despluguei do mundo. Pior. Fiquei inerte e com a cabeça ávida, cheia de esperança e de raiva. Muita raiva mesmo. Minha companhia foi minha velha e bela pistola. Uma 9mm que teimo em guardar comigo, mesmo sabendo que na Coorporação existem melhores. Mas essa tem até nome, sobrenome e sabe exatamente o que penso. Velha amiga.
Quando Stanz me pega para a volta ao batente, noto o ar de felicidade no cara. Pergunto: "Tá feliz em me ver ou isso é alívio?" - Stanz responde "os dois". Bem, daí já começo a imaginar o que vem pela frente. No caminho, seu parceiro, um tal de Gooth, me interroga, faz um monte de perguntas idiotas e chego até a pensar que ele fora instruído para isso. Não vacilo e disparo aquela pergunta que nenhum policial gosta de ouvir: "É da Corregedoria?"
Agora o cenário é diferente. Temos de abordar uma quadrilha, de, aproximadamente 15 caras dentro de um avião. Nos deslocamos até o aeroporto e começo a ouvir as instruções de Stanz, novo chefe de equipe. Devemos cortar o fornecimento de energia do avião, depois de identificarmos quem é quem lá dentro. Espero calmamente suas instruções ecoarem no hangar e protesto: "Stanz, não dá pra identificar sem sermos vistos. Devemos negociar com eles. Esse tipo de gente tem demandas e elas em geral são políticas." Ele me ouve e dá um não com a cabeça. Despacha as equipes: Hotel, Bravo e Papa. Três equipes de seis policiais. Todos de elite, especializados em abordagem de alto risco. Mantenho meu protesto e sou chamado de lado. Stanz me dá um esporro daqueles e diz que isso já teria sido cogitado, que eu não era mais o chefe, blá-blá-blá...
Humildemente me junto à equipe Papa. Somos o pelotão de frente. Entraremos depois de mandarem uma bomba de mostarda para o sniper fazer nossa cobertura. Vamos pela cabine de pilotagem. Aguardo acuado a um trem de pouso. Um de nossos equipamentos de escuta, colocados pelo nosso negociador no avião me deixa ciente de tudo: Eslavos. Mais ou menos dez deles. Não dizem nomes, chamam pelos outros por números. E não tem uma sequência numérica. São criativos. Não apelam para a violência, mas mantêm a rigidez. Profissionais. Tô fodido.
Minha submetralhadora agora recebe o suor de meus dedos. O gatilho está encharcado. Olho para o relógio: oito e cinco da manhã. Sol brando, meio nublado, porém tempo firme, sem possibilidade de chuva. No ouvido direito, escuto o áudio do interior da aeronave, no esquerdo, os comandos de Stanz e todas as equipes. Vejo que no meu "time" temos uma moça. Acho que ela veio de outra circunscrição, tem cara de latina. Não diz nada. É profissional, ou está se cagando de medo também. Nossos olhos se cruzam e tento um aceno com a cabeça. Nada. Nem responde. Olha pra cima e me aponta, com sua arma, onde tenho de entrar. Minha vez chegou.
Temos um martelo, com ponta de diamante, capaz de quebrar algumas espécies de vidros. Mas aqui, os vidros são revestidos por outro material, um acrílico acho. Dou uma pequena batida só para ver o que daria. Um pequeno furo me garante a quebra do vidro. Olho pelo pequeno espelho alçado e não vejo alma na cabine. Bomba de mostarda. Quebro o vidro aguardando que minha equipe entre por duas de quatro ventanas. Todos entram. Sigo atrás. A moça lidera e fazemos uma formação em V. O vértice de nossa equipe é uma mulher que nem sei o nome, de onde veio, pra onde vai, mas foda-se. Meu coração disparado, minha vista estatelada, não suo mais. Porrada. Agora é a hora da porrada. A equipe Bravo, que entrou pela emergência anuncia duas baixas inimigas. Abrimos a porta. Há outra, fechada e toda arrebentada de tiros. Cartuchos no solo indicam que alguém esteve ali empunhando uma Kalashnikov. Beleza. Vai ter porrada! Começo a pensar que nem um lobo louco sedento. Não sou mais uma tábua de medo. Entramos. Pé na tábua. Um deles de costas é atingido na coxa. Outro se joga ao chão e detona uma rodada de sua AK-47. Bravo e Papa abatem o do solo. Piso no pescoço do primeiro atingido. O interior da aeronave tem um cheiro de amendoim. "Cianureto!" Eu grito. Mas em vão. Uma granada de fabricação caseira estava em uma das portas derrubadas por nós. Ela gira e lança o gás rapidamente. Um dos reféns grita e tosse. Mando calar a boca e vestir a máscara de oxigênio. Nossa líder interfere e não autoriza ninguém a vestir as máscaras. Entendi o recado e continuo em frente. Stanz me chama, não respondo e abato mais um. Esse é o número 4 em baixa. Um dos nossos, da equipe Hotel tenta algo e acaba morrendo. Estava no compartimento de bagagens. Já estamos errados. Uma baixa policial é algo não tolerado e pode significar várias baixas civis. Os sequestradores não usam capuz. Estão vestidos com roupas comuns e sabem se movimentar dentro do avião. Na certa estão acuados no bagageiro com alguma "surpresa." Stanz me chama de novo. Agora respondo. Ele me destaca para baixo, para acompanhar Hotel. Vou, enquanto Lafforgh, esse o nome dela, lidera a saída de reféns. São dois andares de passageiros, sala de máquinas e compartimento de carga. Desço, acompanhado de outro Anti-Sequestro. No andar de baixo Hotel mantém a segurança de alguns reféns e de parte dos comissários de bordo. Baloung me dá as coordenadas para eu descer e me assegura do perigo que seria. Peço para uma das aeromoças o microfone para falar com os sequestradores. Ela me guia até um moquifo apertado, onde há um telefone. Tiro meu capacete e ela me olha como se eu fosse um santo. Mando-a sair do avião. Ela nega, diz que sua compania aérea não permite que ninguém saia enquanto nada estiver resolvido. Foda-se.
"Alô; aqui é o Agente Paul. Com quem falo?"
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