
O vento é abafado, mesmo de madrugada. O rosto de Smith é algo aterrorizante. Mesmo assim tentamos manter as aparências e o levamos até ao Distrito. Lá, o relatório frio e calculista de um assassino passional. Ele sempre afirmando que não era a primeira vez que ameaçara a mulher e que isso um dia iria acabar acontecendo. Inspetor Murddock e eu só conseguíamos fazer cara de nojo enquanto acompanhávamos o depoimento. Delegado Schwartz era taxativo e estava deixando bem claro o quanto sua noite de sono perdida iria custar ao acusado. Nada de perdão. Nada de Direitos Humanos.Só o óbvio. Raiva. Ódio e vontade de terminar com aquilo tudo.
A vantagem da prisão em flagrante é que em alguns casos, dá menos trabalho. A burocracia de um inquérito é menor. Mais sucinta. Nada faz, porém, que ela não exista. E é a pior parte de uma prisão; você sabe que o cara está errado, ouve toda a sua versão, umas dez vezes, colhe os seus dados, documentação...Um saco! E ainda dá pena. A maioria das vezes sentimos pena dos que são pobres, sem condições de defesa ou mesmo de criminosos de primeira viagem que se mostram realmente arrependidos. O trabalho tem de ser feito. A qualquer custo. Até pois, se pensar em mim, poderia estar em lugares diferentes. E a Lei é cega. Pelo menos deveria ser.
Murddock sai da sala do Delegado e me chama pra um café. Vejo que meu velho parceiro e amigo está acabado. Vários são seus sinais do tempo. A feição de um nômade que já atravessou muitas tempestades de areia, o cansaço de seus olhos, a bruta face marcada por expressões e a voz. A voz de Murddock é cansada, rouca e cheia de preguiça. Tomo café e me pergunto: "Será que é assim que vou ficar?" Sei que é. Mas que merda de vida. O café então, parece mais o resultado de uma lavagem de panos. Porra de café ruim.
O Delegado libera o acusado. Lentamente o levamos até a carceragem e digo: "Não adinata você dar uma de engraçadinho agora, Smith. É para lá que você vai." Ele nem titubeia e olha sempre para a frente, parece aceitar o destino e seu arrependimento é nulo. Entra na cela, o barulho da tranca (o famoso "cambão") o assusta. Agora parece que a ficha caiu. Ele chora e pede para que saiamos dali.
Voltamos ao local do crime. Os peritos ainda colhiam provas materiais e uma senhora me interrompe.
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