quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Inferno

Encare como se fosse real. Essas palavras ecoavam na minha cabeça e não conseguia pensar em mais nada. Todas instruções, regras, quebras de protocolo, tudo, pulava na minha frente, mas o medo era maior e eu não conseguia raciocinar.
Uma mata densa, tipo amazônica, silenciosa, dava mais pânico. Não sabia o que iria achar pela frente, o treinamento havia acabado, não tinha mais volta, somente ir em frente e se salvar. Olhava para os outros, para ver se era só eu que me cagava de medo, mas, infelizmente não, todos estavam em pânico. Passos curtos nos guiavam, o poente era nossa referência. De repente, tiros, estampidos, folhas e pedaços de árvores ao chão. Estávamos sendo atacados. Não sabíamos de onde, mas, era real, aquele inferno era real.
Olho nas armas, checagem de munição, camuflagem, e eu só pensava: "E agora? Que merda eu faço agora? Correr não vai adiantar em nada..." - mas, durante o medo é que vemos o quanto somos fortes, durante essas situações tiramos forças de lugares que nem imaginávamos ter como fontes. Procuro saber se há algum ferido, ninguém responde. Vamos então guardar o perímetro, já que fomos descobertos. A manobra é perfeita, todos cobrem os flancos e nada escaparia de nossos olhos. Todos são um agora. Todos pensam e carpem a luta unicamente. Somos parte de um só. Um cara com muito medo, mas, disposto a encarar suas limitações.
Não sabemos se é melhor seguir em diante ou permanecer quietos. Um batedor sai em busca do inimigo, seu olhar é vago e sem confiança, procuro dizer palavras de motivação, mesmo sabendo que isso não adiantaria. Ele acena com a cabeça e sai como um rato em direção ao predador.
Cobrimos seus passos, primeiro visualmente, depois com as lunetas. Não demora muito e ele volta, correndo, exausto, sem conseguir dizer uma palavra.
Depois de recuperado o fôlego, descobrimos que nós é que somos os intrusos. Estamos a poucos metros de um QG inimigo.
O pânico volta. A boca seca pede água. Não sei o que faço. Penso no óbvio, pedir ataque aéreo, mas, fomos vistos por eles, seríamos facilmente caçados, aliás, já estávamos sendo. Depois de refletido isso, imagino: eles devem estar de olho em nós. Estamos sendo vigiados! E o pior, não sabemos se devemos recuar ou ir adiante!
O meu desespero era visível, o que tornou meus comandados cada vez mais incrédulos. Disse ao meu imediato que deveríamos refazer o perímetro e procurar por armadilhas, ele decidiu que deveríamos nos reagrupar e esperar pelo pior. Concordei e devolvi: "O pior virá de nós!".
Fizemos dois grupos, um de frente para o Norte outro de frente para o Sul, com flancos abertos no caso de fuga. Éramos ao todo quinze soldados, estávamos armados com fuzis e duas metralhadoras. Avisei que devíamos poupar munição, mesmo assim, dei ordem para que atirassem ao redor, para que os possíveis inimigos revelassem suas posições. Tiros de pistola alternados com rajadas cortavam a mata. Dois grupos de batedores foram identificados e abatidos. 4 no total.
Podíamos e devíamos nos mover, nossa posição agora era totalmente vulnerável. Usando a formação em V, deixamos os dois médicos em flancos diferentes e refizemos o caminho de volta.
Ora ou outra eu me volvia para a retaguarda, certo de uma retaliação inimiga. Não deu outra: uma forte rajada, acredito que de um grosso calibre, nos caçava. Ao chão, todos flanquearam em direção às árvores, nossos escudos naturais. Uma granada, saiu do meio de nosso pelotão, algo que não tinha pensado, mas que fora uma bela manobra. O estampido do explosivo atrasaria o inimigo, que ainda não tinha visada pronta de nossas posições. Estavam abertas as portas do inferno.

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