quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Camarões


Três e meia da manhã. Todos vidrados, acordados e aguardando ordens para entrar no cativeiro. Três reféns importantíssimos para o governo e nada relevantes para a sociedade esperam ansiosos pela nossa entrada. Aliás, eles nem sabem que estamos aqui, só devem desconfiar e achar que somos atrasados, que os gastos com a polícia local deveriam dar resultados, que políticos sequestrados seriam facilmente rastreados, essas merdas...
Só sei que meu nervosismo se transformou em calma. Uma calma perigosa de quem não sabe o que vai acontecer e que tem, por obrigação, manter a fachada de homem centrado. Murddock me olha e dá o sinal. Corre-se. Muito. O som de nossas botas incomoda meus ouvidos, penso que poderíamos ser alvejados de imediato. Mas o sinal seria dado só em caso de extrema decisão. Calculadas as hipóteses de sermos descobertos e subtraídas as chances de sucesso aliadas às nossas condições, começamos a entrar.
Dois tiros. Um deles, uma bomba de fumaça. O outro, uma de gás de pimenta. Várias armas são preparadas para o tiro dentro da casa. Começa a carnificina. Vejo que Murddock e Lavej são vistos. Lavej se esconde atrás de um carro e Murddock segue em frente fazendo zigue-zague. Tento dar cobertura, mas meu ângulo de tiro é cego. Não posso atirar, com medo de acertar um parceiro; jogo uma granada de luz e som, a famosa flashbang, preferida dos videogammers....Ela entra por uma janela e cumpre o prometido. Por 12 segundos não temos resposta do inimigo. Entro. Vejo quatro encapuzados, todos com pistolas e fuzis automáticos. Fico sem resposta e recebo uma ordem pelo rádio:"Anda, cara! Atira!"
Cinco polegadas abaixo de minha mira está uma granada pendurada no pescoço de um dos sequestradores. Não sei como, mas consigo explodí-la, provocando a morte dele e o ferimento dos outros três. Era uma granada de impacto, de 12 kg de força frontal. Russa, militar. Esses caras têm um fornecedor dos bons. Na certa é um dos que está como refém. Ouço o estampido da granada e saio da cozinha. Um erro. Não se entra no cativeiro e depois sai; se entrou, entrou e pronto. Mas meu ouvido esquerdo sangra e não consigo escutar porra nenhuma do rádio. Chamo a Central e comunico meu ferimento. Stanz me puxa para a direita e deflagra uma saraivada de cartuchos 9mm. Todos eles com endereço certo. As janelas do andar de cima. Vários observadores se escondem e saem da linha de tiro. Entendo o recado, espero a rodada de Stanz terminar e logo em seguida dou o meu recado. Consigo acertar um deles de raspão e corro em direção à casa. Só que agora mudo minha entrada. Stanz me substitui e entra pela cozinha. Ninguém o recebe. Estão na parte de cima mesmo. Murddock canta a pedra pelo rádio. "Granada!" Outro barulho seco. Mais uma flashbang. Um grito de socorro é seguido de dois disparos silenciados. "Perdemos um refém,imaginei."
O sangue nos olhos dos sequestradores se transforma pouco a pouco em medo. Um deles resolve se entregar e é morto antes de colocar a arma no chão. Um erro nosso. Mas a possibilidade de blefe nos ajudaria em um processo administrativo. Não é hora para se pensar nisso. Entro na casa e não vejo nada. Uma fumaça verde com cheiro de pimenta do reino entra pelas minhas narinas e começo a tossir. A merda da minha máscara não está mais funcionando...

Um comentário:

  1. caraca meu eh muito louco imaginar essa cena todinha enquanto se vai lendo uma historia dessas

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